sábado, 17 de setembro de 2011

Edmir Perrotti


Edmir Perrotti
"O país preocupa-se em alfabetizar a população e, no entanto, não tem feito o mesmo esforço para que os cidadãos brasileiros sejam leitores". A frase é de Edmir Perrotti, professor colaborador sênior da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo na disciplina Políticas Públicas em Comunicação e Leitura. Ele também leciona no curso de pós-graduação em Infoeducação: acesso e apropriação de informação na contemporaneidade. Graduado em Letras, com mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação, Perrotti conta que foi inspirado a seguir esse caminho pelas obras de Monteiro Lobato. "Quando me caiu nas mãos, por razões absolutamente aleatórias, o Sítio do Picapau Amarelo e encontrei a Emília, foi paixão à primeira vista", relembra de forma bem-humorada. E enfatiza: "Para mim, o mundo das ideias, da imaginação e da criação estava escolhido para sempre". Leitura é a grande bandeira de Edmir Perrotti e, em nome dessa causa, o professor fez importantes contribuições para a literatura, como o desenvolvimento de mais de 100 bibliotecas, a criação da Estação Memória - onde idosos, crianças e jovens trocam experiências e histórias de vida - e o trabalho de crítica literária. Além disso, é autor e editor de algumas publicações. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por ele à Pátio Educação Infantil. Cristiane Marangon

Em que consiste o conceito de "confinamento cultural da infância"?

Em um antigo trabalho, procurei indicar as mudanças que aconteceram na infância dos brasileiros nas décadas de 1960 e 1970. Com o crescimento da urbanização e os automóveis ocupando as ruas das cidades, as crianças perderam espaços onde tradicionalmente brincavam - ruas, praças e quintais. Essa situação, aliada ao ingresso da mulher no mercado de trabalho, contribuiu para que os pequenos fossem levados para instituições escolares. No entanto, a escola não oferecia (e ainda não oferece) a mesma possibilidade de experiências. Nos momentos lúdicos na rua, eles desfrutavam de autonomia, ao contrário do ambiente escolar, que conta com um educador em constante supervisão do grupo. Os repertórios culturais foram estreitando-se e, para isso, adotei a expressão "confinamento cultural da infância", que explorei no livro Confinamento cultural, infância e leitura, publicado em 1990.


O que essa expressão tem a ver com literatura?

Na década de 1970, aconteceu uma explosão de consumo por livros infanto-juvenis no país. Comecei a pesquisar a razão desse movimento. Os adultos estavam subtraindo tempo e espaço de brincadeira das crianças e, no lugar disso, oferecendo livros. Era o mundo da historicidade substituindo a experiência direta e concreta. Isso era preocupante, porque tanto as crianças mereciam experiências reais quanto a literatura merecia um destino melhor. O que aponto como grande problema dessa transição é passar de um modo de viver para um outro sem oferecer alternativa para que se preserve o que havia de bom, que era a autonomia, a iniciativa, o contato com a adversidade por meio das brincadeiras nas ruas, nas praças e nos quintais.


Qual é o melhor destino para a literatura?

A literatura é um espaço de liberdade, imaginação e aventuras. Nesse sentido, não pode ser instrumentalizada para uma finalidade de ensino, como, por exemplo, uma narrativa que tem como objetivo ensinar padrões éticos e morais. Essa preocupação em ser útil para a criança tirou a essência, o sentimento lúdico que é necessário à vida, já que, para viver, é preciso reprimir ou deixar adormecidos desejos e fantasias. A arte tem o papel de humanizar, fazer uma reconciliação com esse universo de sombras, desconhecidos, ameaças e perigos tão comuns durante a jornada infantil. A literatura permite vivenciar e superar medos, aflições e outras emoções pelos super-heróis e pelas fadas. O objetivo é fazer com que esse o mundo interior de cada um, que é tão real e verdadeiro, dialogue com a arte, mais especificamente com a literatura. Daí a importância de ler em todas as fases, não somente na infância.


A partir de qual idade é recomendado
ouvir histórias?

De preferência, escutar histórias desde o ventre materno. As gestantes que alisam a barriga e lembram de narrativas, palavras, canções, que conversam com seus bebês, mesmo em silêncio, transmitem tranquilidade ao pequeno ser. Quando nascerem, esses bebês terão uma relação especial com a arte de diferentes maneiras. As pesquisas comprovam que as crianças que ouvem músicas tranquilas e sons ricos apresentam desenvolvimento diferenciado das que não têm acesso ao mesmo repertório. Isso ocorre porque a linguagem é o elemento que nos produz como seres humanos. O acolhimento da criança pressupõe palavra, narrativa, literatura e arte. Contar histórias é uma arte, é fantástico e tem de ser cultivado desde muito cedo.


Há hierarquia entre contar e ler?

Em uma história contada tendo o livro como suporte ou em uma contação sem a intermediação dele, é importante estar envolvido com a história e o contexto. Mais do que isso, é necessário que o narrador escute, preste atenção em seus ouvintes. Afinal, não é só o contador que desempenha esse papel. Cada criança tem sua própria história, seu modo de interpretá-la e, portanto, pode querer comentar ou fazer uma nova versão. É muito importante a narração para os pequenos, mas é preciso despolarizar essa ação e permitir que eles contem histórias para nós, adultos, e para seus colegas. Saber ouvir é uma arte fundamental.


Como é possível planejar esse tipo
de trabalho na escola?

O professor é um profissional e, por isso, tem de dar conta desse tipo de trabalho. O ser humano está perdendo a experiência em narrar. Cada vez temos menos tempo de conversar com as pessoas. A gente informa as coisas e não conversa e, por isso, vamos perdendo a capacidade de narrar e de escutar. Quando o professor lê uma história para a sua turma, ele precisa interpretar atos, e isso demanda conhecimento. É essencial também saber escolher o texto, a sua extensão, e avaliar se motivará o grupo. Enfim, esta é uma ação pedagógica e artística que requer atuação e performance. O professor tem de aprender a fazer e, para isso, precisa planejar-se e entregar-se a essa arte.


Como o professor dá conta disso?

Existe um Projeto de Lei (PLC 324/09) que prevê que, no máximo em 10 anos, toda instituição de ensino do país, pública ou privada, tenha uma biblioteca escolar [o projeto foi aprovado em abril, após a realização da entrevista]. No entanto, sabemos que não é por decreto que as coisas vão acontecer. O professor está em uma situação difícil, porque é cobrado cada vez mais por uma postura pedagógica favorável a essas atitudes na escola. Por outro lado, sabemos que ele não teve um bom modelo de educação quando aluno, sua formação é extremamente precária e ele ainda não conseguiu incorporar essas questões indispensáveis. O professor está em uma situação na qual se vê sem as principais ferramentas, tendo de dar conta de um trabalho que não oferece a ele mesmo, nos contextos profissionais, elementos para compensar essa necessidade. Por isso, penso que todo educador deveria ter um "vale-cultura", como um desses cartões utilizados por trabalhadores na hora de almoçar. É fundamental que ele esteja a par do que acontece no circuito da literatura, especificamente da sua profissão. Se ele não vai à livraria e não sabe quais são os lançamentos, como é que vai se apropriar dessa cultura? Como vai ser um mediador adequado? Como contar uma história? Sem essas competências, os alunos terão mediadores pobres. A escola de hoje alfabetiza, mas não colabora para que as pessoas tornem-se leitoras. Tanto isso é verdade que muitos universitários que ingressam nas melhores faculdades não têm experiência nenhuma de literatura.


Quais são os erros mais comuns
nas bibliotecas escolares?

Às vezes, a escola nem tem um espaço destinado à leitura e, quando tem, geralmente é pouco agradável, nem um pouco atraente, além de mal-utilizado, mal-explorado e malconcebido. De outro lado, a escolha de acervo é feita aleatoriamente, pois via de regra é o mercado quem define as escolhas. A escola não tem referenciais para avaliar a produção, porque não há crítica de literatura infantil como havia nas décadas de 1960 e 1970. Não todo livro que ideal para as crianças. Os livros escolhidos são pobres, desprovidos de diversidade e pluralidade. Um erro muito comum é quando as instituições propõem-se a educar em detrimento da arte. Um acervo para crianças de 2 anos, por exemplo, não deve ter apenas livros que ensinem a fazer alguma coisa, como escovar os dentes, tomar banho e não agredir o colega. Não tenho nada contra esse tipo de literatura, mas não se pode matar o espírito de liberdade, de aventura, enfim, de experiências que sequer conseguimos nomear. O compromisso com o ensinar não pode matar a aprendizagem e o interesse. O lugar de leitura na escola tem de ser rico, plural, diverso; deve contar com variados formatos de livros, com publicações indicadas para a idade e para além dela e com diversas línguas, se possível.


Como promover essa mudança?

Estamos engatinhando. Na Universidade de São Paulo (USP), criamos a disciplina Políticas Públicas em Comunicação e Leitura, que é a que eu leciono. É importante que a garotada que vem aí comece a pensar nesse tema. É preciso que as pessoas comecem a se apropriar dos diferentes modos de utilização da linguagem escrita para não nos empobrecer. Com isso, não estou dizendo que todos devem tornar-se escritores, ou que devemos nos apaixonar pela escrita criativa, mas é fundamental poder experimentar isso. Entendo que educação é um ato de florescimento. O professor educa para que cada um possa florescer com o que tenha de melhor. A formação de leitores é algo que deve ser apoiado, e não feito aleatoriamente. Outra boa ação que posso compartilhar - para, quem sabe, inspirar - é a experiência de construção de uma rede para o terceiro setor. Os educadores tinham de elaborar um projeto de leitura com suas turmas que englobasse os pais dos alunos nesse processo. Cada um inventou sua estratégia. Por exemplo, para a mãe que chegava sempre 15 minutos antes de buscar o filho, foi adotada a estratégia de que ela lesse nesse meio-tempo. Isso é criar mecanismos de inclusão de leitura não só na escola, mas também fora dela, o que é essencial.


Qual é a sua opinião sobre os livros-brinquedo?

Os livros-brinquedo podem ser publicações de literatura, com histórias, ou ser apenas brinquedos. Essa distinção é importante porque os livros que apenas emprestam o formato de uma publicação, mas cujo objetivo é a brincadeira, como a manipulação, por exemplo, não despertarão nos pequenos a vontade de ler, já que eles têm uma história para ser lida. Acho o máximo o livro-brinquedo, porém ele não é o mesmo que um livro de texto. A mesma recomendação vale para os livros de imagens. Eles podem ajudar na internalização de escrituras narrativas, ou seja, uma história pode ser contada com ajuda das imagens, mas esse tipo de leitor não passa a ser automaticamente um leitor de texto escrito.


Como as novas mídias relacionam-se com a leitura?

A internet é feita de histórias. Além dos textos, existem os hipertextos. Ela é um veículo privilegiado. Quando falamos de leitura hoje, não me parece mais possível deixar de pensar nisso. Um dia, a leitura foi ligada ao manuscrito, foi também impressa e agora é digital. Entendo que a comunicação manuscrita tem o seu lugar, assim como a impressa e, agora, a eletrônica. Cada uma tem as suas especificidades e possibilidades. Fiz um trabalho com idosos sobre filmes. Pedi para que eles dissessem quais seus filmes inesquecíveis. Ao mesmo tempo, pedi que crianças e adolescentes fizessem o mesmo indicando os deles. Eles trocaram informações por um blog. A internet permite contar histórias e mandar esses textos para outras pessoas. Se o professor souber usar, é um mundo de colaboração que se abre.
Revista Patio

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