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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Eduardo Galeano - Veias Abertas da América Latina

Eduardo Galeano
janeiro de 2007
O escritor e jornalista uruguaio, cidadão latino-americano, arquiteto da palavra, Eduardo Galeano, é um dos intelectuais de maior prestígio na América Latina Autor do clássico “Veias Abertas na América Latina, no ano de 1970, Galeano passou pelo Rio de Janeiro e concedeu esta entrevista em que analisa questões atuais relativas à criação literária e temas relevantes da atualidade mundial, além de traçar um panorama sobre a mídia e as novas formas de comunicação que a cada dia se ampliam. Desta entrevista participaram os jornalistas Mário Augusto Jakobskind, Maria Luiza Franco e Claudia de Abreu.








“As veias abertas na América Latina” estão mais abertas ainda do que há 37 anos atrás quando você escreveu esse trabalho, ou não, o que mudou?






Galeano: Estive há pouco tempo, duas semanas, em Buenos Aires, parte da minha família está lá, eu estava caminhando, feliz, quando encontrei o Conde Drácula, tinha chegado da Transilvânia, estava recém chegado e eu achei ele estragadíssimo, não o reconheci. Mais morto do que vivo. Olhando o chão, caminhando com dificuldade, acabado o coitado do Conde Drácula. Aí perguntei para ele: o que acontece com você, Conde?. E respondeu: olha, estou aqui.., fazendo o quê?, procurando um psicanalista. Dizem que aqui tem os melhores do mundo, olha, não sei se tem os melhores, mas tem muitos. Qualquer casa dessa, cada campainha tem um psicanalista. Mas para que você precisa de um psicanalista, Conde Drácula? - Eu tenho complexo de inferioridade incurável, mas vou tentar com ele, se alguém pode me salvar - Complexo de inferioridade por que, Conde? - Porque eu vejo como é que agem hoje as grandes corporações multinacionais, esses sim que são autênticos sanguessugas, isso eu fico... sei lá, achando que tem uma crise de identidade, de auto-estima.




Agora, você percebe que as veias estão mais do que escancaradas na América Latina, você percebe que essa realidade é uma realidade que extrapola a América Latina? Essa realidade de que cada vez mais a América Latina está arrombada por essas empresas, por essas corporações, isso é um problema hoje que está percorrendo o mundo inteiro, ou está especificamente na América Latina?






Galeano: Não, é universal. Só que esse mundo que diz que é democrático, não é muito democrático; ele esconde diferenças que vão crescendo a cada dia, ano atrás ano, o norte e o sul. Mas que se abre com uma tesoura, vai abrindo, abrindo, a distância dos que têm e dos que precisam. Os que precisam são cada vez mais; os que têm, cada vez menos. E essa é a organização mundial. (risos) Não é um privilégio da América Latina ter essas injustiças terríveis. O mundo é muito injusto, é muito pouco democrático.








Você acha que precisa se discutir a democracia?






Galeano: Democracia é um tema possível; no mundo de hoje se fala o tempo todo em democracia. O mundo democrático... Democrático não é; se é, eu tenho as minhas dúvidas. Veja você, tem esse super governo agora agindo no mundo. Perdão. Os governos latino-americanos continuam sendo governos governados. Governados pelos super-governos que estão aí agindo internacionalmente. Todos têm nomes, internacional, mundial. Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, o que não expressa o conjunto de países. As decisões são tomadas por cinco países, sobretudo por um, que tem direito de veto.








Em relação às veias abertas, queria lembrar a questão do petróleo e a diferença de tratamento entre os governantes da América Latina. Por exemplo, o Chaves e o Morales usando o petróleo em defesa da soberania de seus países, e aqui no Brasil a gente tem leilão de petróleo. Queria que você comentasse um pouco isso.






Galeano: A idéia é que... eu lembro que neste país, o Brasil, aquele grito “o petróleo é nosso” virou um lema nacional lindíssimo, de afirmação nacional, de dignidade em defesa dos recursos naturais do país. Foi o símbolo do nacionalismo brasileiro. Entendi no sentido positivo da palavra nacionalismo, como afirmação de dignidade de fato. Agora, quando esse mesmo exercício de dignidade nacional está vivo na Bolívia, por exemplo, o Brasil deveria aplaudir. Em parte, o exemplo brasileiro está sendo seguido por outros países vizinhos. Em vez de se escandalizar, ou achar que os bolivianos estão agindo contra a Petrobras, e não sei o quê, o Brasil deveria aplaudir, dizer: “muito bem, vocês estão bem, estão aprendendo a dura lição da história.








Mais do que refúgio, você não acha que a literatura pode ser um meio de transformação coletiva?








Galeano: Também. Eu acho que sim, que pode, na medida que a palavra seja capaz de continuar viva naquele que a recebe. Quer dizer, que se transforme. O leitor perfeito para mim. O meu grande amigo que foi Júlio Cortazar falava do leitor passivo, e eu nunca concordei com ele. O leitor é o leitor ativo, que recebe. São palavras que depois ficam sendo diferentes porque vão se transformando dentro do leitor. Então o leitor, a partir dos livros, um texto qualquer, aquela coisa trabalha dentro dele, vai alimentando a sua imaginação, a sua consciência, a sua capacidade de alegria e de dor também, de pensar, de sentir. Eu acho que sim, que a palavra pode ter um certo poder transformador. Não vai mudar o mundo, mas sempre tem influência grande. Os grandes livros de maior influência no mundo estão aí para demonstrar que a palavra não é inútil. A Bíblia, o Alcorão, O Capital, sei lá quantos.








Qual você acha que é o papel do intelectual hoje, na América Latina?






Galeano: Não sei. Eu nunca contesto esse tipo de programa porque quem sou eu para decidir o papel do intelectual. Eu só sei o que eu sei. Sempre que eu estou habitando uma realidade maravilhosa e horrorosa, que merece ser contagiada, que merece ser transmitida, comunicada. Você precisa chegar mais lá, no passado, no presente. Passado também, história real e uma história mentida, uma história que não está assim visível. A história oficial é uma coleção de mentiras, onde há heróis dizendo grandes frases que não são a verdade dos tempos passados. Por quê? Porque a palavra que vale a pena escutar é a palavra dos desprezados. Tenho muitos bons amigos, intelectuais, que têm uma certa tendência a acreditar que o povo é mudo. Não se fala daquele que não tem voz. Voz temos todos. Todos temos alguma coisa digna que merece ser oferecida aos outros. Alguma palavra que mereça ser dita, alguma palavra que mereça ser escutada, celebrada ou ao menos perdoada. Então o problema é saber escutar para saber falar. Sempre digo, é condição essencial escutar as vozes, as vozes jamais escutadas. São as vozes verdadeiras. Aí você soma o passado latino-americano, ditado pelos machos, pelos brancos, pelos militares, e pela elite dominante. 5, 10, 50 pessoas. Então, a realidade de verdade é para mim uma fonte de tentação contínua. Que boa coisa para ser contatada..., que boa energia para ser comunicada, e a que vem dos outros, não escutados, das mulheres, dos negros, dos índios, dos pobres, dos civis. Daqueles que não estão, que não figuram aí. Nós pertencemos a nações que nasceram mutiladas. Então, elas têm uma cultura passada, literatura, que também está mutilada. Tenho a modesta intenção de contribuir na recuperação dessas vozes perdidas.








Outra questão que a gente sempre discute, nós jornalistas e escritores, no mundo da comunicação: como você vê hoje a mídia na América Latina, essa, que tem até a sigla, Sociedade Interamericana de Imprensa, a todo momento fala que defende a liberdade de imprensa, etc e tal, como você vê esse quadro atual?






Galeano: Sim, uma coisa é liberdade de imprensa, uma outra é liberdade de empresa. Uma coisa é liberdade de expressão e a outra diferente, às vezes até inimiga da liberdade de expressão, é a liberdade de pressão. Essa liberdade de pressão é exercida pelas grandes empresas dominantes nos meios de comunicação. Aí é preciso descobrir qual é a verdade das mentiras que cotidianamente recebe. Como aquele general mexicano, Serrano, lá pelos anos 20, ele lia o jornal ao avesso. O presidente da época, viu ele lendo o jornal ao avesso e disse: Mas general, como é que você lê o jornal assim, ao avesso, sempre?. E o militar respondeu: sempre. Como assim? Por quê? - Resposta: por experiência, por experiência.






E como fazer o controle social da mídia sem fazer censura, por exemplo? Porque é isso que os empresários falam, todo e qualquer controle, qualquer reivindicação da sociedade é tratada como se fosse um problema de censura, que querem censurar determinadas coisas, como não cair nisso?






Galeano: O controle é necessário hoje, mais do que nunca é necessário ampliar os espaços de comunicação alternativos. Na verdade, por exemplo, o desenvolvimento da Internet penso que foi muito positivo, porque permitiu que algumas vozes condenadas ao silêncio perpétuo pudessem ser escutadas além dos limites mesquinhos da mídia dominante. Eu tinha preconceitos contra internet, devo admitir isso. Mas agora estou reconhecendo.








Se adaptou...






Galeano: Não. Eu não me adaptei a nada, mas eu reconheci, eu acho que a realidade... A coisa está em ser capaz de ver as coisas como são, e não como a gente acha que são. Aquela deformação típica que diz: se a realidade não é como eu acho que é, então ela não me merece. Ela que tem que mudar para se adaptar a minha visão dela. Então essa não é minha maneira de ver as coisas. Eu tinha preconceitos contra a internet, depois eu estive vendo que a internet abriu espaços muito importantes, e isso é uma fonte de esperança no mundo de hoje, porque a internet nasceu sendo um instrumento militar, um instrumento de morte. E foi criada na Universidade de Berckley, na Califórnia, mas ao serviço das necessidades do Pentágono na planificação universal da morte, das atividades de guerra militar. E virou uma coisa muito diferente, que abre espaço de vida importantíssimo. É um paradoxo que eu acho que é uma fonte de esperança. Nem tudo vai sendo pior do que era. Tem coisas que às vezes a gente tinha, como no meu caso, preconceito e são preconceitos da minha natural anárquica resistência às máquinas. Porque eu acho que máquinas, o computador, televisor, todas as máquinas bebem de noite, quando ninguém está vendo, aí elas bebem e depois durante o dia fazem coisas inexplicáveis. Disso eu tenho provas científicas...








Você falou da Internet. Você acha que caberia hoje a edição de jornais impressos de esquerda que façam frente a esse discurso repetitivo que está todo dia nas bancas, e que na verdade tem formado esse leitor, esse cidadão, você acha que cabe um jornal?






Galeano: Agora a influência dos jornais é muito menor do que era há 20 anos, 30 anos. Tem mais influência, eu acho, a televisão, do que a imprensa escrita, na hora de decidir qual seria o meio melhor para ampliar o público, para redescobrir o arco-íris, todas essas coisas maravilhosas que estão aí esperando para ser despertadas. E tem esses meios alternativos novos, como a televisão comunitária. Eu acho que esse é um dos meios melhores, mais importantes para que o povo possa se expressar, para que a expressão venha de onde deve vir, de dentro, de baixo, não de cima, de fora. Essas pressões que vêm de cima e de fora são partes de uma alienação cultural que acha que tudo aquilo de importado vale. Tudo aquilo que é nosso, mas é qualquer, não vale nada, é um lixo. Então eu acho que o desenvolvimento das rádios comunitárias, das televisões comunitárias e dos espaços alternativos na rede de internet, as boas notícias no mundo que apareceram nesses 15, 20 anos, com muita força, é uma fonte de esperança de dizer: Não estamos condenados a ver a nós mesmos com os olhos daquele que nos despreza, que nos explora, que nos humilha. Eu dirigi em Buenos Aires, nos primeiros tempos do meu exílio, uma revista cultural que se chamava Crisis. Foi uma experiência interessantíssima porque a tradição, ao menos no mundo da língua espanhola, ensinava que uma revista cultural não pode vender mais que 500 mil exemplares. Pode sem, em caso excepcionalíssimo, que você coloca uma mulher nua na capa e consegue vender 2 mil. E nós chegamos a vender 25 mil. O que era incrível. E a chave do sucesso dessa publicação na Argentina, uma publicação que expressava a cultura latino-americana viva, e que não só era um meio de difusão das palavras dos artistas, dos poetas, dos escritores, mas era também um meio de comunicação direto. Nós pegávamos a palavra, procurávamos como que a gente se expressava. Até nos grafites e nas paredes, que são a imprensa dos pobres, também uma maneira de expressão. Escutar a voz, escutar, para ser capaz de falar; primeiro, escutar...






Agora, você não vai discordar que nós, a sociedade brasileira, a sociedade latino-americana basicamente é áudio-visual. Então nesse sentido, além do jornal impresso, deve-se destacar a importância de se ocupar o espaço nos veículos eletrônicos. O sistema digital, por exemplo, que pode ser uma revolução na comunicação com a multiplicação do número de canais de rádio, tv, só que as decisões estão sendo tomadas no sentido oposto. E no Uruguai também está se discutindo isso hoje?






Galeano: Não, está se tentando ampliar a comunicação, nós estamos ainda muito ligados a opiniões tradicionais. Eu trabalho junto com o Zibechi, escrevendo, publicando. Mas o que eu acho necessário é que fique claro que uma coisa são os meios e outra coisa os fins. O que é desejável é que em nossos fins fossem encontrados meios adequados para se expressar e chegar a maior quantidade de pessoas. Mas que nenhum meio de expressão está por cima dos outros. Nenhum meio é melhor do que os outros. Depende do momento e do lugar. E eu digo isso confessando que eu sou absolutamente pré-histórico. Eu escrevo à mão, eu não sei conduzir um carro, eu sou um desastre. Tenho essa desconfiança com as máquinas, sou completamente inútil. Para mim é um milagre divino quando puxo um botão e a luz do quarto se acende. Eu sou um desastre, um paleolítico. O que eu não posso é transmitir essa limitações aos demais como se fossem uma certeza absoluta, dizendo: olha, a única boa forma de expressão é a minha, que é a escrita. O único meio possível de respostas a esse monopólio da informação e da opinião, dos grandes fabricantes universais da opinião e da informação é um novo jornal, ou um jornal alternativo, não quero fazer isso. Eu quero ter a maior amplitude possível.




Você é um escritor, não pode ter certeza.




Galeano: Não, não, porque as dúvidas... Eu desconfio muito dos que têm só certeza. Eu só acredito nas certezas que nascem das dúvidas. Quer dizer, as certezas que cada manhã, junto com o cafezinho, recebem, se alimentam das dúvidas. Então tenho certeza que são certezas certíssimas às 8 da manhã, 10; à 1 da tarde eu acho que não acredito muito nisso, não, mas às 3 me recupero. Eu estou continuamente desafiado pelas minhas dúvidas. E tenho uma desconfiança dos caras que só têm certezas, certezas absolutas. Porque esses caras depois, um dia, chegam ao poder e fuzilam meia humanidade, sobre aquele que não comparte da certeza dele, passa a ser um pecador. Vai para o fogo.


Eduardo Galeano, há 5 anos houve o atentado do World Trade Center, como você está vendo, hoje, o mundo com Bush, esse mundo e nossa América Latina? Se nós corremos realmente perigo de continuar nesse estado de coisa; e outra questão, Oriente Médio... tivemos aí nesse confronto entre um estado e uma milícia armada, e quando se critica o Estado de Israel, você inclusive foi signatário do manifesto denunciando as atrocidades israelenses no Líbano, e todo crítico é chamado de anti-semita. Como você vê...?Galeano: Do meu ponto de vista, o pior atentado que o mundo sofreu nesses últimos anos não foi a derrubada das torres gêmeas em Nova Iorque, mas a idéia da guerra no Iraque. Uma guerra que já matou, segundo as estatísticas oficiais, 50 mil civis. A maioria deles mulheres e crianças. Esse foi e continua sendo o pior atentado terrorista. O terrorismo de estado é muito mais perigoso do que o terrorismo do maluco privado; aquele fanático religioso promove um dano minúsculo comparado com a estrutura do poder terrorista do mundo. Esse é um mundo, que não é só um manicômio, é também um matadouro. Cada dia esse mundo está gastando 2 bilhões e 500 milhões de dólares na indústria da morte. Ou seja, na indústria militar. Então o mundo é um mundo terrorista. Os donos do mundo estão exercendo o terrorismo. E precisamos desses outros terroristas como Bin Laden, que são caras fabricados por eles para justificar a existência dessa estrutura internacional de poder consagrada à morte.


EDUARDO GALEANO - Escritor é referência mundial

EDUARDO GALEANO




A história é um profeta com olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será. Essa frase é do escritor uruguaio Eduardo Galeano e foi publicada na contracapa do livro As Veias Abertas da América Latina, que está completando 30 anos de seu lançamento em 1971. Em uma época que a maioria dos países latinos convivia com as mordaças das ditaduras militares, Galeano rompeu o silêncio e denunciou os instrumentos de espoliação, as injustiças à sombra do poder e o saque ao continente. Fatos, como ele mesmo diz, que insistem em se apresentar como obra do destino e do acaso. Aos 60 anos, idolatrado pelas esquerdas, Galeano tornou-se símbolo de resistência à exploração dos povos oprimidos do continente latino-americano. Sua voz não cala e suas palavras continuam encantando leitores de todos os continentes. Durante a abertura do Fórum Social Mundial, a atriz Celina Alcântara subiu ao palco de seios à mostra e, cercada por desempregados e trabalhadores sem-terra, recitou uma crônica escrita por Galeano em 1998. A interpretação do texto O Direito ao Delírio, que fala de um século 21 sem pobres, guerras e meninos de rua, emocionou a platéia. Versão / René Cabrales [] [] A capacidade que Galeano tem de encantar e de transmitir seus sonhos e a teimosia em querer transformar o mundo levaram mais de 700 pessoas a disputar um lugar no Teatro da PUC, durante a sua palestra no FSM. Todos queriam ver o autor com quem compartilham planos, frustrações e esperanças. Em sua primeira frase o escritor já arrancou aplausos: “Se podemos organizar toda essa gente aqui, somos mesmo capazes de tudo”, referindo-se ao princípio de tumulto causado pela superlotação do auditório. Em seguida, leu uma série de crônicas suas, onde retrata as dores e os projetos da humanidade e a barbárie dos tempos que instituíram “o medo global”. O jornalista e escritor Eduardo Hugbes Galeano nasceu no inverno de 1940, em Montevidéu. Aos 14 anos já publicava desenhos que assinava como “Gius”. Galeano fez de tudo: foi mensageiro, desenhista, peão em fábrica de inseticida, cobrador, taquígrafo, caixa de banco, diagramador, editor e peregrino pelos caminhos da América. Em Montevidéu dirigiu um semanário chamado Marcha e foi diretor do jornal Época. Preso pelo regime militar uruguaio, em 1973 começa seu exílio na Espanha. Transfere-se para a Argentina, onde funda a revista Crisis com Julio Cortázar, escritor e jornalista argentino. Em 1985, após 12 anos de exílio, Galeano retorna ao Uruguai. Para ele, as lembranças dos regimes militares ainda lhe causam muita dor. Quando ocorreu o golpe na Argentina, em março de 1976, vários de seus companheiros desapareceram e outros foram torturados. Nessa época, o escritor de Veias Abertas corria risco de vida, pois seu nome fazia parte de uma lista de procurados. Em uma entrevista, o escritor disse que a única maneira para a brutalidade das ditaduras não se repetir é manter a história viva. Ele conversou com o jornalista Alexandre Costa.

Versão - Quais as perspectivas para América Latina, passados 30 anos da publicação de Veias Abertas?

Eduardo Galeano - A América Latina empobreceu, perdeu sua soberania e diminuiu sua autonomia, ao mesmo tempo em que o sistema neoliberal global foi se articulando e tornando-se unânime, alimentando-se das desigualdades, que são cada vez maiores. Por isso, a América Latina tem um imenso desafio e vamos ver como reage frente a ele. Poderá ser uma cópia do mundo desenvolvido e dos países que nos governam ou poderá seguir o seu próprio caminho, o caminho das suas próprias esperanças. Esse é o desafio que está diante de nós. E eu acredito que o melhor que temos no mundo é a quantidade de mundos existentes, as diferentes culturas e as mais variadas formas das coletividades se expressarem. Ou nos afirmamos com nossos próprios ideais ou vamos nos converter em uma sociedade que aceita a história oficial, nos tornando uma caricatura dos países ricos, que roubam nossa memória e as nossas riquezas. Posso dizer que a situação da América Latina hoje piorou em relação aos 30 anos que se passaram, desde a publicação de Veias Abertas.

Versão - Como o senhor vê o neoliberalismo e a globalização?

Galeano - O sistema de poder vende a si mesmo como eterno, o amanhã é outro nome de hoje, e nos convida à aceitação como modo de vida. Estamos paralisados por este sistema de poder. É assim porque assim será e nós estamos nos acostumando a esta eternidade e aceitamos tudo como se fosse inevitável. Estamos cada vez mais prisioneiros do dinheiro. A globalização, para além do comércio internacional, nos impõe uma cultura universal que se apóia no medo. Esse é um mundo paralisado pelo medo que impede de nos mover, até de tomar medidas que eventualmente não sejam aceitas pelo FMI. Nunca o mundo havia sido tão desigual nas oportunidades que oferece e tão igual nos costumes que impõe. O símbolo perfeito é o McDonald’s. Aconteceu a “mcdonaldização” do mundo. De certa forma, os pobres comem melhor que os ricos, que aceitam essa comida de plástico.


Versão - O Movimento Zapatista seria um exemplo para romper estas desigualdades?

Galeano - Trata-se de um movimento muito importante, que alcançou a justa repercussão internacional. Começou como uma sublevação local de camponeses que se cansaram dos abusos e rapidamente se espalhou pelo país. A história do México está dividida em antes e depois de Chiapas e um dos motivos para isso é que o movimento faz um enlace entre o passado e o presente. Marcos não é indígena e havia ido a Chiapas para ensinar - uma dessas contradições da esquerda, influenciadas talvez pela idéia da ilustração. Humilde, percebeu que ele é quem tinha muito a aprender com a cultura maia, bastante misteriosa para nós e segundo a qual fomos criados pelo tempo e somos filhos dos dias. E ele foi capaz de projetar a reivindicação de Chiapas numa linguagem clara. Acima de tudo, ele tem senso de amor e de humor, coisa que em geral falta à esquerda.

Versão - E Cuba?

Galeano - Cuba é um país com o qual eu tenho uma longa relação de amor. Cuba simboliza a dignidade. Mas isso não quer dizer que eu não tenha críticas e divergências ao sistema cubano. A minha relação com Cuba é muito verdadeira. E os amigos de verdade fazem críticas de frente. Eu penso que a onipotência do Estado não é a melhor resposta para a onipotência do mercado.

Versão - Como envolver e integrar os movimentos populares da América Latina?

Galeano - Da mesma forma com que estão aqui reunidos em Porto Alegre para o Fórum Social Mundial.

Versão - Na sua opinião, o genocídio na América Latina continua?

Galeano - Os países que mais armas vendem ao mundo são os mesmos países que têm a seu cargo a paz mundial. Felizmente para eles, a ameaça da paz está se debilitando e o mercado de guerra se recupera e oferece promissora perspectiva de rendas e de carnicerias ao sul do mundo. Este é um mundo criminalmente organizado. Mata-se muito à bala, vende-se cada vez mais armas. De acordo com números de organismos internacionais é possível afirmar que se o mundo dedicasse 12 dias, apenas 12 dias, do dinheiro que gasta em armamentos para ajudar as crianças pobres do planeta, estas crianças poderiam ter escola, assistência médica e comida. Portanto não se mata apenas à bala. Mata-se também de fome e de doenças curáveis. E não se matam só os corpos, mas também a alma. Há corpos a andar por aí sem vida. E matam o ar, a água e a terra. E matam o mundo.

Versão - Fale um pouco do Plano Colômbia.

Galeano - Na edição da revista Time de outubro de 1998, publicou-se matéria sobre a lavagem de 100 milhões de narcodólares de Raul Salinas, chamado senhor vinte por cento, porque é o que ele leva em cada operação do governo. Um relatório do Senado norte-americano mostrava que a operação havia sido feita pelo City Bank. A pergunta é: por acaso o City Bank foi preso? Quem vai preso são os negros e pobres, porque a luta contra as drogas é a máscara da guerra social. Trata-se de conter qualquer foco de rebelião e o grande exemplo é o Plano Colômbia. Os narcotraficantes são fiéis seguidores do neoliberalismo: onde há demanda, surge a oferta. E os grandes traficantes ou bancos que lavam dinheiro gozam da maior impunidade. Mas quem são os grandes traficantes dos Estados Unidos? Será que eles não existem? Só prendem grandes traficantes na Colômbia, na Bolívia, no México. E nos Estados Unidos, não existem grandes traficantes? Por isso, esta é uma guerra contra os pobres e somente contra os pobres.


Bibliografia Completa * Guatemala, país ocupado (1967) * As veias abertas da América Latina (1971) - Editora Paz e Terra * Vagamundo e outros relatos - (contos) * A Canção de nossa gente (1976) - Romance, Editora Paz e Terra. * Dias e noites de amor e de guerra (1978) - Editora Paz e Terra. * Memória do fogo (I) - Os nascimentos - Editora L&PM * Memória do fogo (II) As caras e as máscaras - Editora L&PM * Memória do fogo (III) O ciclo do vento - Editora L&PM * O livro dos abraços (1989) - Editora L&PM * Nós dizemos não (1989) - Crônicas, Editora Revan * Ser como Eles (1993) - Crônicas, Editora Revan * Palavras Andantes (1993) - Editora L&PM * Futebol ao Sol e a Sombra (1995) - Editora L&PM * Las aventuras de los jóvenes dioses (1998) - Patas arriba * De Pernas Pro Ar, A escola do mundo ao avesso (1999) - Editora L&PM Alexandre Costa é jornalista ***
http://intervox.nce.ufrj.br/~valdenit/GALEANO.HTM

BEATRIZ BISSIO - Conflitos na África

BEATRIZ BISSIO
Editora da revista "Cadernos do Terceiro Mundo"


Fazendo Media - A idéia que temos dos conflitos na África é a que a mídia passa, de que esses conflitos são gerados por guerras civis entre tribos. Eu queria saber se é só isso, se a coisa toda se restringe a isso. O que você viu lá que a mídia não nos disse?
Olha, a mídia em geral trabalha, lamentavelmente, com simplificações e estereótipos. Uma simplificação que normalmente acontece na cobertura das agências a partir das quais se pautam tanto os jornais quanto a televisão. Fundamentalmente, é uma simplificação no sentido de descontextualizar.

O fato é apresentado como começado e terminado em si mesmo. Então você vê essa tribo que se enfrentou com essa outra. Seria o caso de se perguntar se é correto se falar em "tribo"? O que significa isso? Ou são culturas... porque "tribo" para nós já tem uma conotação pejorativa. No momento em que você descontextualiza o problema, você tira a capacidade do leitor ou do telespectador a possibilidade de entender a saída. E ai você então passa a achar que são culturas sem valores, primitivas, que a única coisa que sabem é ficar em guerra umas com as outras, não sabem nem bem por quê.

FM - E para você, como jornalista que já esteve lá, que conhece a região, quais são as raízes desses conflitos?
Há dois problemas sérios na África. Existem "n" derivações, mas a gente poderia colocar esses dois como âmago da maior parte dos problemas. Um é que os Estados que atualmente existem na África tiveram suas fronteiras definidas pelo colonialismo europeu.

FM - Na conferência de Berlim...
Na conferência de Berlim e em seus desdobramentos. Então são criações que desrespeitaram na sua origem as verdadeiras culturas e as limitações que historicamente existiam na África. Vieram os colonizadores, ignoraram, imaginaram eles que era uma terra de ninguém, criaram uma superposição com uma cultura trazida de fora, muitas vezes imposta. E disso aí saiu uma aberração, como não poderia deixar de ser, como é a maior parte dos países africanos hoje. Não têm unidade lingüística, não têm unidade cultural, não têm unidade religiosa e não têm o sentimento de pertencer a uma nação. E o segundo grande problema é a questão de, por ser um continente rico, existirem grandes interesses internacionais que estão interferindo diretamente na problemática local com aquele velho ditado de: "divide e vencerás, divide e reinarás". Então, muitos dos conflitos que acreditamos ter raízes internas na verdade não as têm. São fruto da cobiça internacional. É mais fácil explorar o petróleo, o diamante, o urânio, ou o que seja, dentro de um contexto de luta. Há um ditado de pescador que diz: "A río revuelto, ganância de pescador". Quando as águas estão turbulentas, quem ganha é o pescador. Ganha quem vai explorar. Com esses dois ingredientes, e mais a herança colonialista do subdesenvolvimento, você tem a explicação de grande parte dos conflitos que estão acontecendo na África.

FM - A gente vê muito pouco na grande midia a América Latina. A gente sabe muito de Nova lorque, de Milão, mas a gente não sabe nada da Bolívia, do Chile... O que acontece na midia? Isso é preconceito, é pelo patrocinio? Por que não temos informação do que somos?
É uma pergunta ótima e ao mesmo tempo complexa. Para a parte internacional, o jornal assina determinadas agências de noticias e com esse material de base, o jornalista arma a página. Então o que acontece? Essas agências ou são de origem européia ou são agências de origem estadunidense. Quem chefia essas agências e pauta essas agências são pessoas do primeiro mundo. Nesse contexto, mesmo as pessoas que tenham mais consciência de seu dever de cidadãos do mundo a respeito do que significa informar no mundo globalizado de hoje, vão priorizar sempre a informação do mundo desenvolvido, porque é o que eles melhor conhecem. Por outro lado, existem preconceitos muito grandes sim, em relação ao mundo subdesenvolvido. Para esse nível de regionalismo de grandes agências, a escolha do que seja uma noticia é uma escolha totalmente pautada pelos valores, pela noção que eles têm de sociedade. Qual é hoje o segmento que está absolutamente supervalorizado? É a Economia. E dentro da Economia, o que está super-super-super-valorizado? É a área financeira. Então passa a ser notícia somente aquilo que diz respeito a finanças.

FM - O que tem a ver com o individualismo a que você se referiu anteriormente.
Tudo tem a ver, no fundo, com uma proposta de sociedade a que a gente está submetido. E então você vai ali percebendo que existe todo um pressuposto que está permeando escolhas do que seja noticia, quais são os países que realmente interessam no mundo e ai por diante. Não são escolhas nossas, não são prioridades nossas. São pacotes que já chegam prontos. E quando assinamos essas agências isso já está tudo embutido. Quantas coisas acontecem no Brasil e não são notícia para nossa mídia? Ou que, se são notícia, são apresentadas com um viés... Por exemplo, o que está acontecendo com o MST. Qual é o viés que nos é apresentado? É o viés da violência, o viés de que estão sendo um acinte à propriedade privada... Em vez do mostrar o que há no outro lado da moeda, toda a ênfase em alfabetizar os acampados, de oferecer-lhes as noções de cidadania, de dar-lhes auto-estima, fazer dessas pessoas, que são excluídos, brasileiros com vontade de fazer parte da sociedade. Então essa sua pergunta teria que ser feita também nos cursos de comunicação. Porque o tipo de jornalista que está sendo produzido, na maior parte, com dignas exceções, é o jornalista para atuar em conformidade com esta estrutura, para não questionar, para não pensar criticamente e, portanto, para se amoldar confortavelmente nessa estrutura que está funcionando sem tentar enxergar um pouco mais longe.

http://www.fazendomedia.com/fmoutros/entrevista0011.htm

Eduardo Galeano - De pernas para o ar



No seu livro De pernas para o ar você dedica um capítulo inteiro aos meios de comunicação de massas. Queria ouvir a sua avaliação dos meios de comunicação de massas dentro do sistema de poder vigente e como contribuem para transmitir essa cultura de impotência.

Sim, transmitindo uma cultura da impotência que tem numa das suas bases essa cultura de perpetuação, essa ideia de que você tem direito a existir enquanto você aceite que a sua existência será uma obediência. Se você pretende existir com um projecto, a situação fica mais difícil. Os meios de comunicação ao serviço dessa visão conformista da história, do mundo, da vida, estão agora mais concentrados do que nunca. Os espaços da imprensa independente, da expressão independente, têm­‑se reduzido muito. Com uma excepção, que eu acho muito importante, que é a internet. A internet realmente abriu espaços de enorme difusão a vozes que agora encontram possibilidades de difusão incríveis. E isso é uma boa notícia que a realidade deu contra todos os prognósticos, pois a internet nasceu como uma operação militar do Pentágono para planificar as suas operações. Ou seja, foi uma coisa nascida da morte, do extermínio do outro, pois a guerra é isso. E depois tornou­‑se num espaço que contém um pouco de tudo, que não é uma coisa só, mas que inclui muitas expressões, da afirmação da boa energia da vida, da energia multiplicadora do melhor da vida, a liberdade, a vontade de justiça.

Você acabou de falar da internet, inicialmente usada pelo Pentágono e depois subvertida. Recentemente em Paris as periferias levantaram­‑se e usaram a gasolina para acender os coquetéis molotov, ou seja, usando o mesmo combustível do sistema. Queria saber se você acredita que o sistema tem esse carácter autofágico e se isso poderia ser mais explorado.

Não sei. Acho que as contradições do sistema capitalista são reais e não produto de uma mente assim doente, febril, de algum terrorista conspirador, inimigo da humanidade. Essas contradições têm como consequência uma marginalização social crescente. E essa marginalização vai continuar a produzir acontecimentos, que às vezes são controláveis, outras nem tanto, e que podem gerar alternativa. Vamos ver o que acontece, pois ninguém sabe. Esses movimentos, como esses do banlieu, de Paris, que segundo um amigo meu, não sei se é verdade, ban vem de banir, que significa castigar, proibir, expulsar, jogar fora. E lieu significa lugar. Lugar de expulsão, lugar de castigo. A ideia é muito interessante, porque é exactamente isso que está a acontecer. Mas por enquanto são explosões de puro desespero e não têm nenhuma perspectiva de futuro. Tanto é de desespero que muitos dos carros queimados são carros dos próprios queimadores. São filhos queimando o carro do pai que é um operário pobre, que conseguiu comprar um carro pobre, que está a ser queimado pelos seus. É uma agressão contra um sistema segregacionista, humilhante, mas também tem muito de algo auto­‑destrutivo, suicida, como acontece nos movimentos que são de puro desespero. A esperança que a gente tem é que isso possa, depois, desembocar em outras coisas, como muitas vezes acontece na América Latina, que começa com uma raiva que explode cegamente e depois encontra caminhos para se converter em algo bastante melhor. Quer dizer, abrindo perspectivas. Se não fica só como uma testemunha de que essa é uma situação insuportável e que até agora o sistema vinha dissimulando a insuportabilidade da situação. E essa reacção tão expressiva, tão curiosa, foi uma reacção contra o desprezo quotidiano, multiplicada hoje porque as pessoas que têm alguma coisa a ver com o mundo árabe são os novos demónios, terroristas. E o mundo do bem necessita ter demónios para se justificar. Esse mundo gasta hoje 2 mil e 300 milhões de dólares por dia com a guerra! 2,3 mil milhões de dólares por dia na fabricação da morte, na indústria da morte! É até difícil imaginar como é possível. Bom, para que isso seja possível, que é um escândalo, você precisa ter demónios, é a luta contra o mal. Enquanto isso você tem tanta criancinha morrendo de fome, morrendo de doenças curáveis. É um escândalo! Esse mundo é escandalosamente injusto! Mas aí você precisa de demónios.

Por exemplo?

Hugo Chávez é um demónio. Porquê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos, que não sabiam ler e escrever, mas vivem num país que tem a riqueza natural mais importante do mundo que é o petróleo. Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que era. Chamam de “A Venezuela saudita” por causa do petróleo. Tinham 2 milhões de crianças que não podiam ir às escolas porque não tinham documentos. Aí chega um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer “As crianças devem ser aceites nas escolas com ou sem documentos”. Aí cai o mundo: isso é a prova de que Chávez é um malvado­‑malvadíssimo. Já que tem essa riqueza, e graças à guerra do Iraque o petróleo tem cotações muito altas, ele quer aproveitar isso com fins solidários. Ele quer ajudar os outros países sul-americanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram outra fonte de escândalos. Estão a dizer que os médicos venezuelanos estavam furiosos pela presença desses intrusos trabalhando nesses bairros pobres. Na época em que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico. Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando se lê as notícias, há que traduzir tudo. A demonização tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.

Como está a questão da água no mundo?

No dia em que a Frente Ampla ganhou as eleições no Uruguai, final de Outubro de 2004, foi realizado o Plebiscito das Águas. Foi o primeiro e último na história universal. Primeira e única vez – não foi contagioso, infelizmente – que o povo foi consultado para ver o que fazer com a água, pois agora temos que recuperar aquela concepção islâmica de que a água é sagrada. Todo mundo fala, e é verdade, que a água será o petróleo de amanhã. Então, os países que têm água são obrigados a defender a água que têm e também a democratizá­‑la no uso que se faz dela. Então fez­‑se esse plebiscito para saber se a água seria um direito de todos ou se seria um privilégio de empresas privadas. Cerca de 65% votaram pela água como propriedade pública, colectiva. O Uruguai foi o único país que fez um plebiscito. E a Bolívia havia conseguido o milagre da desprivatização da água, com uma série de insurreições colectivas. Lá a privatização chegou a níveis surrealistas. Não se pode acreditar. Em Cochabamba havia sido privatizada a chuva. As águas da chuva não podiam ser armazenadas. Os camponeses não podiam recolher as águas da chuva sem pagar às empresas concessionárias. É a empresa preferida de Bush no Iraque, que depois foi recompensada no Iraque, como é o nome mesmo?

Bechtel.

Bechtel. E depois, em La Paz, houve um processo parecido: a empresa Suez-Lyonnaise, que é francesa, não conseguia explicar porque é que a parte mais alta da cidade, que é a parte mais pobre, tinha que pagar a maior factura, que era cinco ou seis vezes maior do que quando a água era nacional. Subitamente o preço da água disparou e chamaram os especialistas franceses juntamente com o governo boliviano para estudar o assunto, para saber qual a explicação para este fenómeno sobrenatural: o pessoal não pagava. Resposta francesa: “os bolivianos não têm hábitos de higiene”. Logo os franceses que descobriram o duche há quinze minutos. Não se pode acreditar nisso seriamente. Aí o Uruguai deu uma resposta diferente, tentamos dar. Recolher assinaturas da população para chamar o plebiscito e a opção pela noção pública da água triunfou. Mas não houve a menor repercussão mundial. Você fez uma pergunta ligada à mídia, eu queria falar disso, depois esqueci. É um caso típico, pois é uma questão fundamental, que acontece num país que não é fundamental, que é um país marginal, pequeno, de quem ninguém fala jamais, não tem a menor repercussão, não existe. Eu fui lewinkisado. Tomava o pequeno­­‑almoço com Monica Lewinsky, almoçava com Monica Lewinsky, jantava com Monica Lewinsky. Aquela linguista da Casa Branca virou a estrela da mídia mundial. E o Plebiscito da Água, que é uma coisa fundamental na vida de todo o mundo, ninguém sabe que isso aconteceu. Isso é um bom retrato da mídia. Não houve nenhuma possibilidade de contágio porque não houve nenhuma repercussão. Não se trata de alguma mente malvada que escolhe o que vai divulgar, mas o facto é que a informação privilegiada é a que vem dos países dominantes, e as que dizem respeito aos países dominantes também. E o que acontece nas áreas marginais, no Uruguai por exemplo, é que não existem, somos invisíveis.

Recentemente a Assembleia Geral da ONU votou contra o embargo económico a Cuba, mas o embargo continua.

Sim, porque a Assembleia Geral faz recomendações, não tem sentido prático. São apenas soluções simbólicas, porque não são resoluções, são recomendações ao poder exercido por um grupinho de países, que são, como se dizia antes, o grande escândalo do mundo. Agora as Nações Unidas estão a abençoar a guerra do Iraque, pois estão a promover os processos eleitorais, e a nova Constituição, sob o patrocínio das Nações Unidas, quando todo o mundo sabe que um país ocupado por potências estrangeiras não pode ter eleições livres. Para mim está claríssimo que o mundo hoje não é democrático, está a ser dirigido por alguns organismos internacionais e são estes que decidem. Há um supergoverno que governa os governos. Por exemplo: o Banco Mundial decidiu que em 16 países a água deve ser propriedade privada de empresas. Esses 16 países foram obrigados a aceitar a privatização da água. O FMI decide o ritmo das chuvas, a intensidade do amor dos amantes. Quantos países dirigem o FMI? Cinco, e dentro destes, sobretudo um. O Banco Mundial é mais democrático: são oito países. Por isso o nome “Mundial”. Quem decide as coisas dentro das Nações Unidas? Na Assembleia Geral estão todos, mas estes só formulam recomendações, quem toma decisões é o Conselho de Segurança onde cinco países têm direito a veto. Esses cinco países que prezam pela paz no mundo são os cinco principais produtores de armas. Ou seja: os que lucram com a tragédia humana são os anjos guardiões da paz mundial. Enquanto o mundo não for capaz de mudar essa estrutura de poder não será democrático. E tampouco haverá paz, pois se as guerras necessitam de armas, as armas também necessitam de guerras.
28 de dezembro de 2005 - Portugal
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* Eduardo Galeano é jornalista e escritor uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, entre outros.
http://www.infoalternativa.org/cultura/cultura011.htm

Eric Hanushek - Educação é dinheiro

17 de setembro de 2008


Especialista em combater com números os mitos sobrea sala de aula, o economista americano mostra como o bom ensino pode ser decisivo para o crescimento econômico

Poucos estudiosos se dedicam a compreender a educação com uma visão tão científica quanto a do americano Eric Hanushek. Professor da Universidade Stanford e doutor em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, é dele a mais extensa pesquisa já feita sobre os efeitos de um bom ensino no crescimento econômico. Nos últimos trinta anos, Hanushek vem travando embates com ideólogos da educação e os sindicatos de professores. É figura controversa, entre outras coisas, por ter sido o primeiro a afirmar que aumento de salário não influencia a qualidade do ensino – a não ser quando obedece a uma política de premiação aos melhores em sala de aula.


Seus estudos recentes comprovam uma forte relação entre educação e crescimento econômico. Com o Brasil nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino, o que se pode dizer sobre a economia? Com esse desempenho, as chances de o Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário internacional são mínimas. Digo isso baseado nos números que reuni ao longo das últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala de aula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Olhe o caso brasileiro. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, o Brasil somaria, a cada ano, meio ponto porcentual às suas taxas de crescimento. Isso significaria, hoje, avançar em um ritmo 10% maior. Vale observar que o que impulsiona a economia é a qualidade da educação, e não a quantidade de alunos na escola.


O Brasil colocou 97% das crianças na sala de aula. Isso não tem impacto na economia? A massificação do ensino, por si só, tem pouco efeito – e a matemática não deixa dúvida quanto a isso. Os dados mostram que a influência da educação passa a ser decisiva apenas quando ela é de bom nível. Aí, sim, consegue empurrar os indivíduos e a economia. A relação é simples. Países capazes de proporcionar bom ensino a muita gente ao mesmo tempo elevam rapidamente o padrão de sua força de trabalho. Quando uma população atinge alta capacidade de raciocínio e síntese, torna-se naturalmente mais produtiva e capaz de criar riquezas para o país. Nesse sentido, a posição do Brasil é desvantajosa. Faltam aos alunos habilidades cognitivas básicas, e isso funciona como um freio de mão para o crescimento. Esse cenário, que já era preocupante décadas atrás, agora é ainda mais nocivo.


O que mudou nas últimas décadas? A relação entre boa educação e desenvolvimento econômico é antiga – mas a qualidade do ensino nunca foi tão relevante para o crescimento dos países. Isso porque, em sociedades altamente tecnológicas, a produtividade passou a depender ainda mais das habilidades desenvolvidas na escola. Os números lançam luz sobre o tipo de conhecimento que faz mais diferença: de todas as disciplinas apresentadas aos alunos, são as ciências exatas que, hoje, têm o maior peso para o crescimento econômico. Afinal, exige-se o tempo todo dos profissionais que sejam capazes de lidar com novas tecnologias e de solucionar problemas de alta complexidade. Ocorre não apenas na rotina de quem ocupa um cargo de alto escalão, mas também nas linhas de produção mais simples. Quanto mais gente preparada para enfrentar tais questões, mais chances um país terá de avançar.


Os Estados Unidos são a maior economia do planeta, mas não figuram entre os países de melhor ensino. Isso não é contraditório? Não. Além de uma educação de bom nível, dois outros fatores têm impacto decisivo sobre o ritmo de crescimento de um país: o grau de abertura de sua economia e a segurança institucional que ele oferece, medida pela capacidade de garantir o direito à propriedade privada. Historicamente, os Estados Unidos sempre estiveram muito à frente dos demais países nesses dois quesitos. Outro antigo diferencial americano são as universidades, que ocupam o topo do ranking da excelência. Há décadas elas funcionam como um poderoso motor para o progresso científico e tecnológico, de valor inestimável para a economia do país. Até agora, esse conjunto de fatores ajudou a compensar o desempenho medíocre dos estudantes americanos no ensino básico. Essa vantagem, no entanto, está ameaçada.


Por que o senhor diz isso? Mais países começam a atingir graus de abertura da economia e patamares de desenvolvimento institucional semelhantes aos dos americanos. Também já aparecem, fora dos Estados Unidos, dezenas de universidades onde podem originar-se descobertas científicas relevantes ou mesmo um Prêmio Nobel. Significa que os americanos deixaram de ser os únicos a se destacar em áreas nas quais, bem pouco tempo atrás, não tinham rivais. Caso a qualidade da educação básica ofertada nos Estados Unidos não melhore, a liderança econômica do país ficará seriamente ameaçada. Repare que me refiro aqui apenas aos estragos da má educação. Não estou sequer levando em conta as outras variáveis que podem contribuir para isso.

O impacto da educação na economia varia de um país para outro? Os países que mais se beneficiaram do investimento no ensino, como Coréia do Sul e Finlândia, têm um ponto em comum: são economias abertas. Temos aqui um ciclo virtuoso. Para competirem globalmente, esses países precisam de um exército de pessoas com altíssima capacidade cognitiva – e, contando com elas, lucram como nenhum outro com a concorrência. Quando boa educação vem aliada a uma economia aberta, seu efeito no PIB é três vezes maior do que em países mais fechados.


As salas de aula estão repletas de experiências pedagógicas. O senhor chegou a alguma conclusão sobre qual o melhor caminho para alcançar a qualidade acadêmica? De todos os fatores numa escola, certamente o que mais explica a excelência na sala de aula diz respeito à capacidade dos professores de despertar a curiosidade intelectual dos alunos e lhes transmitir conhecimento. É algo básico, mas freqüentemente ignorado. Veja o que revelam os números. Tendo um ótimo professor durante cinco anos seguidos, uma criança egressa de um ambiente de pobreza e analfabetismo poderá alcançar o mesmo nível de conhecimento de outra vinda de uma casa em que os pais têm diploma de ensino superior e boa situação financeira. A questão é que os diretores das escolas raramente aplicam os critérios certos para rastrear os bons profissionais.


Por que eles erram tanto? Valorizam tempo de experiência e cursos de especialização, quando esses são fatores sem nenhuma relação relevante com a qualidade das aulas. Os educadores resistem a aceitar essa idéia, mas as pesquisas não deixam dúvidas: os Ph.Ds. não apenas não são necessariamente os melhores professores, como muitas vezes figuram entre os piores. Já se conhecem, portanto, algumas das características que não definem um bom professor. O que não se sabe até hoje é o que, de fato, faz um profissional sobressair na sala de aula.


O senhor está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as características que determinam um bom professor? Existem muitas suposições, mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer critérios prévios para a seleção dos melhores professores – e erra-se tanto. É possível, no entanto, tomar medidas para segurar os mais brilhantes na escola e eliminar os mal preparados.


Qual é a melhor maneira de fazer isso? O método mais eficaz, sem dúvida, é aderir à meritocracia. Entenda-se por isso oferecer incentivos financeiros e carreira atraente a quem merece. É fácil identificar os mais eficientes. São aqueles que, ao término de um período escolar, conseguiram melhorar o desempenho de seus alunos em relação ao patamar do qual partiram no início do ano. Para premiá-los, não quero dizer apenas pagar-lhes 200 ou 300 dólares a mais no fim do ano. O que defendo é mais radical – algo que nem nos Estados Unidos, país à frente nesse quesito, foi implantado.


O que, exatamente, o senhor propõe? Faria muito bem às escolas manter salários mensais diferenciados para os bons professores, poder demitir os incapazes e proporcionar, enfim, um ambiente tão competitivo quanto o de uma grande empresa. Depois de tudo o que pesquisei, afirmo com segurança: reconhecer concretamente os talentos individuais é a medida mais eficaz quando se trata de preservar apenas os professores mais talentosos – e melhorar o ensino. Infelizmente, não é tão fácil pôr essa idéia em prática.


Quais são as dificuldades? Primeiro, é preciso desenvolver mecanismos confiáveis para medir o desempenho de alunos e professores. O problema é que a maioria dos países em desenvolvimento não conta ainda com um sistema de avaliações que permita comparar resultados ao longo dos anos, algo em que o Brasil é uma boa exceção. Um segundo obstáculo é o corporativismo dos sindicatos de professores. Eles são os primeiros a se opor a qualquer medida em favor da premiação ao mérito. Como essas organizações têm, em geral, grande peso na definição das políticas públicas de educação, a meritocracia emperra. Tal é o corporativismo sindical que sua principal bandeira sempre foi o aumento generalizado dos salários. Dizem que só assim o ensino vai para a frente.


Até que ponto isso é verdade? Aumentar os salários de todos os professores de uma mesma rede de ensino não contribui em nada para melhorar a qualidade das aulas. Afirmo isso ancorado nos fatos, e não na intuição, como preferem muitos educadores. Ao defender a isonomia salarial e repudiar aumentos atrelados a resultados, os professores não se baseiam em nenhuma espécie de evidência científica de que a medida funcione em favor do ensino. Lutam por isso apenas porque é bom para eles.

Na educação, por que é tão raro que especialistas, educadores e autoridades se rendam às evidências científicas? Além dos interesses políticos, que passam ao largo da ciência, como ocorre em tantas outras áreas, um segundo fator específico da educação pesa contra a objetividade: não sendo uma ciência exata, as pessoas se sentem um pouco especialistas no assunto. Agrava o problema o fato de a sala de aula ser um lugar que, um dia na vida, todo mundo freqüentou. O resultado dessas crenças é perverso: no mundo todo, ainda são raras as políticas na educação guiadas por evidências empíricas, colhidas ao longo de estudos longitudinais e realizadas com rigor científico, como ocorre em outros setores. Políticas respaldadas em achismos são desastrosas. Elas fazem os países perder dinheiro duas vezes.


Como a falta de rigor científico nas medidas para a educação causam prejuízo a um país? Ao se perderem em opiniões vazias de pretensos especialistas, os governos desperdiçam a chance de se beneficiar de práticas já testadas com sucesso. Ao contrário disso, investem tempo e dinheiro em medidas inócuas, que não resistiriam a uma consulta rápida às experiências internacionais e a um mergulho nos números. Eles logo revelariam sua inutilidade. Mesmo grandes instituições cheias de boas intenções cometem erros básicos por subestimar os fatos.


O senhor citaria uma? Sim, o Banco Mundial. Ele erra ao investir em programas mais focados na quantidade de alunos do que propriamente naqueles com o objetivo de elevar o padrão do ensino. Chegar à escola é um primeiro passo – mas só isso. O que determina mesmo o crescimento de um país é quanto de conhecimento poderá ser extraído da sala de aula.

http://veja.abril.com.br/170908/entrevista.shtml

O mastim de Putin na Europa

24 de setembro de 2008
Entrevista: Dimitri Rogozin
O embaixador da Rússia junto à Otan diz quea Geórgia começou a guerra na Ossétia do Sul e acusa os Estados Unidos de estarem por trásda instabilidade no Cáucaso.

Ao aceitar a indicação para ser embaixador da Rússia junto à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental), posto que assumiu em janeiro deste ano, Dimitri Rogozin, de 44 anos, parecia destinado a sumir do noticiário. Em seu país, ele fazia barulho fundando e liderando partidos ultranacionalistas, um dos quais banido das últimas eleições parlamentares por veicular na TV uma propaganda ofensiva contra imigrantes. A invasão da Geórgia pela Rússia, no mês passado, deu a Rogozin a oportunidade de exibir novamente seu estilo ácido de fazer política – ou, no caso, diplomacia. Quando a Otan, liderada pelos Estados Unidos, mandou navios com ajuda humanitária para as vítimas do conflito, ele soltou uma das suas contra o presidente da Geórgia: "Estão levando papel higiênico para o presidente Mikhail Saakashvili". A confusão no Cáucaso deve se estender. Há duas semanas, a Rússia anunciou que vai manter, por tempo indeterminado, 7 600 soldados na Ossétia do Sul e na Abkházia, regiões separatistas do país vizinho. Rogozin concedeu a seguinte entrevista a VEJA, de seu escritório em Bruxelas, na Bélgica:


A guerra na Geórgia foi provocada pela Rússia?Não. A guerra começou porque a Geórgia quis – e quer – resolver todos os problemas étnicos em seu território com agressões militares. Em abril deste ano, durante uma reunião em Bucareste, na Romênia, os membros da Otan declararam que a Geórgia e a Ucrânia estavam aptas a integrar a aliança militar ocidental. Essa afirmação deu impulso à tensão no Cáucaso e foi interpretada pelo presidente georgiano Mikhail Saakashvili como uma licença para atacar a Ossétia do Sul e assassinar muita gente na região. Saakashvili deve ter pensado que, a partir daquele momento, poderia fazer o que quisesse, sem prestar contas a ninguém. A Otan tem de admitir sua responsabilidade ao propiciar as matanças perpetradas por Saakashvili.


Duas semanas depois do fim do conflito, Moscou reconheceu a independência da Abkházia e da Ossétia do Sul, regiões separatistas da Geórgia. A guerra não forneceu um pretexto para uma antiga ambição russa?Tudo o que aconteceu na Geórgia foi contra a nossa vontade. Não há dúvida de que o surgimento de dois novos países é um processo complicado. Mas ele é irreversível: trata-se da única maneira possível de defesa dos cidadãos da região. Depois da agressão de Saakashvili, todo mundo viu que não se pode conversar com esse senhor da guerra no Cáucaso. Dele, é possível esperar atitudes ainda piores. A independência dos dois ex-territórios georgianos é a condição para a paz.

A Abkházia e a Ossétia do Sul serão incorporadas ao território russo?Não, não e não. Ao contrário, o processo de independência em curso nas duas repúblicas demonstra que a Rússia não tem nenhum desejo de anexar tais territórios.


A Rússia diz que seus soldados entraram na Geórgia para defender os ossetas. O que eles estão fazendo, agora, para impedir a vingança das milícias separatistas contra os georgianos que vivem na Ossétia do Sul?Não temos conhecimento de tudo o que ocorre na Ossétia do Sul. Mas, com a criação de uma nação livre, poderemos cobrar dos dirigentes da nova república explicações sobre os erros cometidos dentro de seus limites. É por esse motivo que a Rússia tem muito interesse em apoiar o surgimento de democracias fortes na Ossétia do Sul e na Abkházia.
O presidente George W. Bush enviou navios militares ao Mar Negro para entregar ajuda humanitária à Geórgia e anunciou um pacote de 1 bilhão de dólares para a reconstrução do país.


Como o senhor vê a atuação dos Estados Unidos no episódio?A maneira como os Estados Unidos agiram nas últimas semanas demonstra que o país é um patrocinador militar e político de Saakashvili e de suas agressões contra os ossetas. É uma pena, mas é essa a verdade. Saakashvili é uma figura terrível não só para os cidadãos russos e para os pequenos povos da Ossétia e da Abkházia. Ele é uma figura terrível para o seu próprio país. Durante o seu mandato, a Geórgia corre o risco de perder parte considerável do seu território. Esse é o preço da agressão. A culpa é inteiramente de Saakashvili. Não se pode manter no poder alguém tão irresponsável como ele.


O que representa para a Rússia a decisão dos Estados Unidos de instalar um escudo antimíssil na
Polônia, confirmada em um acordo assinado poucos dias depois do fim da guerra?Trata-se de uma tentativa dos Estados Unidos de criar um problema a mais em nossas fronteiras e neutralizar nossa capacidade nuclear. Por isso é preciso buscar, de nossa parte, uma resposta a essa provocação.

A Rússia anunciou que vai fazer, ainda neste ano, manobras navais com a Venezuela, as primeiras no Caribe desde o fim da Guerra Fria. Na semana passada, aviões russos já realizaram exercícios militares na região. Trata-se de uma resposta ao escudo antimíssil e à presença da Otan no Mar Negro?O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia informou que a decisão de mandar uma esquadra para a Venezuela precede o conflito com a Geórgia. Quanto às relações entre a Rússia e a Otan, de fato não estão muito boas. Esperávamos uma posição mais clara e sincera da organização sobre os assuntos no Cáucaso. Se a Otan mantiver a ajuda militar, política e moral às agressões da Geórgia contra os pequenos povos do Cáucaso, não poderemos considerá-la nossa parceira.


Isso pode significar o início de uma nova Guerra Fria entre a Rússia e o Ocidente?Graças a Deus, não acredito que possa começar uma nova Guerra Fria. A Rússia não tem nenhum interesse nisso e espero que nossos parceiros também não. Mas, se a Otan quiser continuar a existir, terá de se modificar. A Otan (criada após a II Guerra Mundial para fazer frente à União Soviética) não pode continuar sendo uma aliança em bloco como é hoje. Devemos neutralizar todos os esforços para a manutenção na Europa das linhas vermelhas (uma fronteira estratégica traçada por Moscou após o fim da União Soviética, englobando países de sua esfera de influência). Se não houver uma relação muito estreita entre a Rússia e os europeus, não se poderá construir a paz a longo prazo. Os russos sempre serão obrigados a manter uma postura defensiva em relação ao Ocidente.


O senhor comparou Saakashvili a Gavrilo Princip, o sérvio que matou o arquiduque da Áustria, em 1914, dando início à I Guerra Mundial. Não é um exagero retórico?Até recentemente, pensávamos que éramos capazes de evitar conflitos na Europa. Agora, não podemos mais ter essa certeza. Os acontecimentos na Geórgia demonstraram que uma única pessoa pode destruir o mundo. A arquitetura da paz construída após a II Guerra Mundial não existe mais. Há que se discutir um novo caminho para garantir a tranqüilidade no continente.




Quando começou o conflito na Geórgia, os Estados Unidos ameaçaram dificultar a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa possibilidade preocupa os russos?Neste momento, a entrada na OMC não é o objetivo principal da Rússia. Tudo depende das condições impostas para o nosso ingresso. Está claro que as condições para a nossa entrada na OMC não são as mesmas exigidas de outros países. Há aí um exemplo da discriminação contra nós. De qualquer forma, nossos produtos mais importantes são petróleo e gás natural. Como não temos concorrentes nesse setor, não ser aceito na OMC está longe de representar um grande problema para a Rússia. Podemos esperar.



Numa reunião de emergência, no início do mês, os governantes da União Européia decidiram não impor sanções contra a Rússia, como punição pela guerra na Geórgia. O que isso revela sobre as relações entre a Europa e a Rússia?Uma parte da Rússia está e sempre estará dentro da Europa. Não é mais possível dividir a Europa em duas partes. A Rússia tem relações econômicas profundas com a União Européia. Por isso, medidas-bumerangue, que vão e voltam com a mesma intensidade, não podem ser lançadas contra nossos interesses. Eventuais sanções contra a Rússia seriam sanções contra a própria Europa.
A União Européia parece ter medo de que a Rússia corte o fornecimento de gás natural para os países do bloco.Nós não podemos retaliar ninguém no campo das relações energéticas, porque, da mesma forma que a Europa é dependente do petróleo e do gás natural da Rússia, nós dependemos dos europeus para que comprem esses produtos. Como partilhamos interesses, a Rússia jamais discutirá o problema nesses termos.


As relações de seu país com a Otan foram suspensas, mas a Rússia manteve a cooperação com a aliança no Afeganistão. Por quê?Porque no Afeganistão temos uma ameaça que é o movimento talibã. Como o terrorismo fundamentalista também preocupa a Rússia, o talibã é um inimigo comum.


Por que é tão ruim para a Rússia que a Ucrânia ou a Geórgia entrem na Otan?No caso da Ucrânia, é preciso deixar claro, antes de mais nada, que o povo não quer a entrada do país na aliança militar ocidental. As pesquisas de opinião mostram que 70% da população é contra. Seria, portanto, uma decisão antidemocrática. Para nós é ruim porque a Ucrânia e a Rússia são partes de uma mesma família. Temos uma ligação histórica, de um povo dividido em dois países. Por isso, Ucrânia e Rússia não podem estar em diferentes blocos. Ou ingressamos ambos na Otan, ou nenhum dos dois entra. Além disso, a Rússia tem uma base naval em Sebastopol, na Criméia. Em 1997, fizemos um acordo com a Ucrânia para manter a base ali. Sebastopol serve ao mesmo tempo como uma base e uma cidade russa. Ninguém pode imaginar o destino do lugar sem a presença da nossa frota. Quanto à Geórgia, Saakashvili organizou um referendo há oito meses para decidir sobre a entrada na Otan, mas sem a participação da população da Ossétia e da Abkházia. Oficialmente, 70% votaram a favor da Otan. A verdade é outra, porque o referendo não contou com o voto de metade do povo georgiano. Os ossetas e os abkhazes também não querem entrar na aliança ocidental. Para completar, na Otan há uma regra: é proibido convidar países com disputas territoriais internas para participar da organização.


Quem manda na Rússia: o primeiro-ministro Vladimir Putin ou o presidente Dimitri Medvedev?Ninguém conhece, de maneira profunda, as relações existentes entre Medvedev e Putin. São amigos e, por isso, teremos a continuação da política elaborada por Putin. Medvedev é jovem, inteligente e tem suas próprias opiniões sobre política interna e externa. O caminho que o país está seguindo, no entanto, é o da política de Putin. Pode-se dizer que Medvedev é um pouco mais moderado, pelo menos na maneira de administrar as coisas.

Uma reportagem do jornal americano The New York Times diz que o senhor tinha um retrato de Stalin em seu escritório em Bruxelas. Em uma visita aos Estados Unidos, o senhor o teria dado de presente ao ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger.Essa foi uma piada que o repórter do jornal levou a sério. Eu tenho no meu escritório retratos de Putin, Medvedev e do ministro das Relações Exteriores de meu país. Nunca dei nenhum retrato de Stalin a Kissinger.
http://veja.abril.com.br/240908/entrevista.shtml

A guerreira do clima

Entrevista: Connie Hedegaard
A difícil missão da ministra dinamarquesa é obter o consenso internacional em torno de um acordo para conter o aquecimento global.

A dinamarquesa Connie Hedegaard, de 48 anos, tem dois filhos e 1 712 amigos listados em sua página no site de relacionamento Facebook. Ministra de Clima e Energia de seu país, ela precisa fazer amigos e influenciar o máximo possível de pessoas para levar adiante uma missão delicada e exaustiva: a de convencer governos de todos os continentes, ricos e pobres, a chegar a um compromisso para conter o aquecimento global. A ministra prepara o terreno para a Conferência sobre Mudança Climática das Nações Unidas, que será realizada na capital dinamarquesa em dezembro do próximo ano. Essa é a data-limite para a assinatura de um tratado para substituir o Protocolo de Kioto, que estipulou metas de redução dos gases do efeito estufa até 2012. Em visita ao Brasil, onde se encontrou com representantes do governo e visitou uma usina de etanol, Hedegaard concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

O mais conhecido dos céticos, o dinamarquês Bjorn Lomborg, considera exagerada a preocupação com o aquecimento global. Qual a posição do governo da Dinamarca? Lomborg tem o direito de pensar o que quiser. Note que ele próprio admite que está ocorrendo uma mudança climática, mas diz que deveríamos esperar uns cinqüenta anos para começar a lidar com esse fenômeno. A posição da Dinamarca é outra. Confiamos nas estimativas do Painel Intergovernamental para Mudança Climática (IPCC), da ONU, segundo as quais em 2050 já será tarde demais para fazer qualquer coisa. Temos de agir agora. Se não o fizermos, o aquecimento global vai se acelerar de tal maneira que se tornará muito caro revertê-lo. Caso isso ocorra, a humanidade não será capaz de manter o padrão de vida atual. Precisamos tomar uma atitude com urgência.

Qual é o principal indício do aquecimento global? Em 2004, quando fui nomeada ministra do Meio Ambiente, recebi a informação de que em trinta anos o derretimento do gelo do Ártico iria permitir a navegação entre o Mar do Norte e o Oceano Pacífico. Decorreram apenas quatro anos e, no último mês, a passagem já ficou livre do gelo. Ou seja, a abertura do caminho ocorreu muito antes do previsto. Esse é um claro exemplo de que agir agora faz muita diferença. Os países desenvolvidos precisam fazer o maior esforço para reduzir as emissões dos gases causadores do aquecimento global. Mas as grandes economias emergentes, como a China, a Índia e o Brasil, também têm de contribuir.

A senhora assumiu no ano passado o Ministério de Clima e Energia. Qual a missão dessa pasta? Vamos sediar em Copenhague, em dezembro de 2009, a Conferência sobre Mudança Climática das Nações Unidas. No encontro de Bali, na Indonésia, no ano passado, ficou decidido que será preciso chegar a um acordo na conferência de Copenhague sobre o que virá depois do Protocolo de Kioto. Há muito que fazer para que Copenhague tenha sucesso. Uma das funções do novo ministério é conduzir uma espécie de diplomacia climática. Venho gastando uma quantidade considerável de tempo em viagens ao redor do mundo tentando juntar peças do quebra-cabeça necessário para que se chegue a um grande acordo global no próximo ano. Eu não poderia ser apenas ministra de Clima sem ser responsável também pela eficiência energética do meu país. Clima e energia são hoje temas correlacionados.


Do que depende o sucesso do encontro em Copenhague? Depois do fracasso das negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC), o maior desafio das relações multilaterais passou a ser a concretização de um acordo para combater o aquecimento global. Dois fatores são essenciais para isso. Primeiro, os Estados Unidos precisam aumentar seu envolvimento nessa causa. Creio que isso dependerá do que vai acontecer nas eleições presidenciais americanas. Segundo, como a recessão internacional vai influir no assunto. Nesse quesito, há dois caminhos possíveis. Os países podem decidir que não é o momento certo de se comprometer com metas rigorosas e custosas de redução da poluição. Ou podem fazer o raciocínio oposto: o preço do petróleo está alto, e a solução é tornar-se mais eficiente e independente do ponto de vista energético. O Protocolo de Kioto fracassou? Criticar hoje o que foi feito anos atrás por outros governos seria muito fácil. Naquele momento foi o melhor acordo possível. Claro que, já em 1997, todos sabiam da deficiência decorrente do fato de os Estados Unidos não terem assinado o acordo. Desde então, as emissões da União Européia começaram a cair, enquanto a poluição americana continua subindo. Isso é uma prova de que algo funcionou no Protocolo de Kioto.


O que a senhora diz para convencer os políticos americanos a aderir aos esforços contra as mudanças climáticas? Estive, em um dos comitês do Senado americano, frente a frente com alguns dos políticos mais contrários à luta contra o aquecimento global. Eu disse a eles que, sendo uma política conservadora, sei que sempre podemos contar com os Estados Unidos quando o mundo se defronta com um grande problema. Foi assim nas duas guerras mundiais, na Guerra Fria e na luta contra o terrorismo. Mas isso não ocorreu nos últimos oito anos quando o assunto foi mudança climática. Para o bem dos interesses dos Estados Unidos, agora é o momento de o país se engajar nessa agenda. É essencial que a nova geração de europeus, latino-americanos e asiáticos veja os Estados Unidos abraçando uma das maiores causas deste início de século.
Barack Obama e John McCain demonstram maior preocupação ambiental em relação ao atual presidente americano, George W. Bush. Com qual dos dois será mais fácil negociar? Acredito que haverá avanços com qualquer um dos dois, apesar de eles quase não falarem em mudança climática. Tanto Obama quanto McCain colocam, em seus discursos, maior foco na independência energética. Nós devemos trabalhar em cima disso. Se eles se engajarem em um acordo internacional para a redução das emissões, pouco importa se o que os levou a isso foi a preocupação econômica ou a ambiental. Dois anos atrás, McCain esteve comigo na Groenlândia e tive a oportunidade de discutir com ele o tema da mudança climática. Sei que McCain tem grande interesse pessoal pelo assunto. Eu tenho falado também com os assessores de Obama. Não há dúvida de que, não importa quem venha a ser o novo presidente dos Estados Unidos, ele fará algo com repercussões positivas sobre o aquecimento global.


A senhora é a favor de recompensar países como o Brasil ou a Indonésia pela redução do desmatamento? Esse é um ponto crucial. Se eu sou um fazendeiro brasileiro e tenho uma propriedade na Amazônia, posso ganhar dinheiro plantando soja, mas não lucro nada mantendo as árvores de pé. Preciso de um incentivo para fazer isso. Da mesma forma, devemos criar, por meio de negociações internacionais, mecanismos de compensação aos países que conseguirem proteger a floresta. O substituto do Protocolo de Kioto deve conter algo assim para atrair a adesão do Brasil, da Rússia, da Malásia e da Indonésia.


O combate ao aquecimento global pode atrapalhar o desenvolvimento dos países pobres? Quando falamos em reduzir o desmatamento e em outras medidas de combate ao aquecimento global, não queremos de forma alguma prejudicar o direito ao crescimento econômico dos países emergentes. Para sustentarmos um bom padrão de vida para a população mundial de 9 bilhões de pessoas, como está previsto para 2050, teremos de ser mais eficientes no uso dos recursos naturais e investir em fontes renováveis de energia. Quinhentos milhões de pessoas vivem sem luz elétrica na Índia. Claro que não podemos pedir ao governo indiano que seu país pare de crescer economicamente. Precisamos descobrir uma maneira de tornar esse crescimento sustentado, com um impacto menor sobre o ambiente.

Que papel o etanol de cana-de-açúcar pode ter na redução de emissões de poluentes no mundo? Ao tornar os biocombustíveis sustentáveis, o Brasil contribuiu com uma tecnologia que pode ajudar bastante na redução da poluição. As emissões brasileiras, no entanto, continuam subindo. Se o crescimento do número de carros rodando nas estradas e ruas brasileiras supera os benefícios do combustível limpo, significa que o país ainda tem alguns desafios a resolver. O etanol é bom, mas é preciso fazer mais e investir em outras fontes de energia. Na Dinamarca, temos um potencial eólico muito bem aproveitado, mas também temos de fazer mais em termos de eficiência energética.

O lobby contra o aumento da adição de etanol à gasolina é bastante influente na União Européia. Será em vão o esforço da diplomacia brasileira para transformar o álcool combustível em uma commodity internacional? Não. A meta da União Européia é que 10% da frota use fontes renováveis de combustível já em 2020. Isso pode ser atingido com etanol, com eletricidade ou com novas tecnologias. Nós queremos que todo o setor de transportes reduza suas emissões. A discussão relacionando a alta no preço dos alimentos com a produção de biocombustível serviu para esclarecer o assunto. Alguns biocombustíveis são sustentáveis, outros não. Os critérios que vamos estabelecer na União Européia não serão em prejuízo do etanol brasileiro, porque este será capaz de atender às exigências. Coisa diferente ocorre na Europa, onde há quem queira fazer etanol de vinho. Gasta-se sete vezes mais combustível fóssil para transformar vinho em etanol, e isso, obviamente, é uma loucura inadmissível. A eficiência do produto, as conseqüências para a natureza, para a água, tudo isso tem de ser estudado. Na Dinamarca, estamos investindo em biocombustíveis de segunda geração. Uma de nossas empresas desenvolveu uma enzima capaz de transformar lixo em biocombustível, uma área em que podemos estabelecer cooperação com o Brasil.


Qual o segredo para a auto-suficiência energética da Dinamarca? Nos anos 70, sofremos muito com as crises do petróleo. O uso de automóveis chegou a ser proibido nos domingos. Nos últimos trinta anos, investimos muito em nossas próprias fontes de energia, muitas delas renováveis. Hoje somos 100% independentes em energia. Em Copenhague, todo o lixo doméstico é incinerado e transformado em aquecimento central para 70 000 residências. O vento responde por 28% de nossa eletricidade. Nossa tecnologia no setor eólico evoluiu tanto que hoje um terço das turbinas de vento do mundo é produzido na Dinamarca. Com tudo isso, nossa economia cresceu bastante, a ponto de termos o pleno emprego no país, mas o consumo de energia permaneceu estável.


Especula-se que o derretimento da capa de gelo que cobre a Groenlândia pode levar a ilha a se tornar independente da Dinamarca. Isso é possível? Essa é uma grande pergunta. A posição oficial da Dinamarca é que a Groenlândia pode ter tanta soberania quanto quiser. O Reino da Dinamarca fará o que for melhor para a ilha. Há, de fato, a possibilidade de encontrar minérios no solo da Groenlândia, conforme o gelo for derretendo. Quanto mais a temperatura do globo aumenta, maior a chance de que se chegue a esses recursos, hoje escondidos sob o gelo. Devido ao derretimento da cobertura gelada, já se consegue até plantar batata na parte sul da Groenlândia. Mas seria preciso plantar muita batata lá para compensar as inundações e a destruição do sustento de milhões de pessoas na Ásia causadas pelo derretimento do gelo. Também na Groenlândia há muita gente preocupada com a velocidade das mudanças climáticas, que estão prejudicando a indústria pesqueira local. Tudo é bastante imprevisível.
http://veja.abril.com.br/081008/entrevista.shtml

André Petry - Quer capital? Vá à luta

Entrevista: Carlos Gutierrez

O ministro do Comércio americano diz que, com a crisemundial, o dinheiro ficou mais escasso e mais caro. Quemquiser atraí-lo terá de trabalhar mais e melhor
André Petry, de Washington

Aos 6 anos, ele e sua família fugiram de Cuba, depois que Fidel Castro tomou as terras em que plantavam abacaxi. Instalado em Miami, começou a aprender inglês com um porteiro de hotel. Depois, sua família mudou-se para o México, onde ele arrumou um emprego na Kellogg, o gigante dos cereais. No início, dirigia um caminhão de entregas. Foi escalando os degraus da empresa, até que acabou transferido para os Estados Unidos, onde subiu até o topo. Daí, saiu para ocupar o cargo de secretário de Comércio, equivalente ao de ministro, no segundo mandato do presidente George W. Bush. A trajetória de Carlos Gutierrez, 54 anos, é um filme: de fugitivo de Cuba, onde nunca mais pôs os pés, a ministro de estado da maior potência do planeta. Na semana passada, em seu amplo gabinete em Washington, Gutierrez deu a seguinte entrevista a VEJA antes de embarcar para o Brasil, onde passaria três dias entre Rio Janeiro e São Paulo.

A crise que começou em Wall Street não vai reduzir o volume de comércio entre o Brasil e os Estados Unidos? Antes da crise, o capital era abundante e barato. Isso está acabando ou já acabou. As empresas globais, americanas e européias, vão se tornar muito mais seletivas em relação às suas escolhas sobre investimento. Então, os países que querem atrair investimentos vão ter de seguir fazendo o que já fazem, só que com mais rapidez, com um sentido de urgência que não havia antes. As empresas vão ser mais cuidadosas a curto e médio prazo antes de tomar decisões sobre seus investimentos, vão estudar melhor todas as alternativas. A competição por capital, portanto, vai ficar muito intensa.

O pior da crise já passou ou ainda está por vir? A resposta à sua pergunta depende da rapidez com que a crise for enfrentada. Nos Estados Unidos, acho que podemos ter orgulho da rapidez da nossa reação. Em apenas duas semanas, o governo conseguiu aprovar o plano de socorro de 700 bilhões de dólares. O desafio, agora, é implementá-lo. Vai ser complicado e complexo, e certamente levará algum tempo. É importante entender isso: vai levar algum tempo.

Quanto tempo? Acredito que ninguém sabe. O plano de socorro vai contemplar várias empresas, que vivem sob circunstâncias diferentes, e, diante delas, existem diversas alternativas. É um processo complexo. Houve uma grande mudança de abordagem da crise. Antes, vínhamos enfrentando os problemas empresa por empresa, como aconteceu no caso da Fannie Mae e da Freddie Mac (as duas maiores empresas hipotecárias do país, que foram encampadas pelo governo no início de setembro). Com a aprovação do plano de socorro, demos um salto à frente, antecipando-nos a eventuais problemas, e passamos a ter em mãos um instrumento para uma solução global, e não apenas uma solução individual para cada empresa.

As bolsas estão desabando em todo lugar. Será que o mundo achou insuficiente a resposta do governo americano à crise? Não acompanho a bolsa todos os dias, mas hoje as pessoas estão preocupadas com a situação mundial. Ficou claro que estamos diante de um problema global, e não apenas dos Estados Unidos. Sabemos como são as bolsas. Uma hora elas caem, outra hora sobem. Pessoalmente, o que tenho ouvido de empresários e investidores é que eles estão muito satisfeitos com as medidas que o governo tomou.

A crise, com o plano de 700 bilhões e o crescente déficit americano, levará os Estados Unidos a ser mais agressivos nas exportações? É a estratégia que devemos seguir. Acredito que é a estratégia que todos os países devem seguir.

Na América Latina, qual o melhor país para fazer negócios? Os dois países com a mais alta renda per capita da região são Chile e México. Esse dado varia bastante, mas é mais ou menos isso. É interessante notar que são dois países com os quais temos acordos de livre-comércio. Com o México, temos o Nafta. Com o Chile, mantemos um acordo muito bem-sucedido desde 2003. O modelo chileno é muito interessante. Ainda que muitos considerem o governo do Chile de centro-esquerda, o país tem sido muito pragmático em relação aos negócios. O Chile tem hoje acordo de livre-comércio com cerca de cinqüenta países. É um dos recordes mundiais. Outras nações têm sido bastante ágeis, como Colômbia, Peru, Uruguai. O Panamá e a República Dominicana estão crescendo rapidamente. Mais recentemente, o Brasil também tem crescido bem.

O que é pior ao fazer negócios com o Brasil: a corrupção ou a burocracia? A primeira coisa que me vem à cabeça quando se fala do Brasil é seu grande potencial, seu grande progresso. Tenho em mente mais coisas positivas do que negativas sobre o Brasil. Mas eu diria que, como tantos outros países, o Brasil ainda tem muito espaço para melhorar e se aperfeiçoar no campo da abertura comercial e da atração de investimento estrangeiro.

Mas o que é pior, afinal? A pior coisa é que não tiramos vantagem do nosso potencial mútuo. O comércio bilateral hoje, entre Estados Unidos e Brasil, é de 52 bilhões de dólares. Podemos aumentar isso muito mais.

Quanto? Temos quase 1 trilhão de dólares de transações comerciais com Canadá e México. Com a China, temos 400 bilhões. Com o Brasil, o céu é o limite. Duplicar nosso comércio não é exagero. Nós não maximizamos nossas potencialidades. Estamos deixando empregos, dinheiro e oportunidades sobre a mesa.

O que é preciso fazer para chegar um pouco mais perto do céu? Há uma série de passos a ser dados. Ampliar o investimento bilateral é uma coisa importante, porque dá mais confiança, mais transparência aos investidores. O Brasil tem um grande projeto de infra-estrutura que está sendo implantado de modo agressivo pelo presidente Lula. As empresas americanas precisam fazer parte desse projeto, por exemplo. Precisamos de um acordo tributário também.

Os empresários brasileiros reclamam das dificuldades de obter até visto de entrada nos Estados Unidos. Precisamos fazer progressos nessa área. Quanto mais contato as pessoas têm, mais negócios elas acabam fazendo. Nossa meta é reduzir para trinta dias o período entre o pedido do visto e sua concessão. Ainda não chegamos lá.

O senhor diria que o etanol brasileiro entrará nos Estados Unidos sem barreiras comerciais em 2010, 2020 ou 2050? Não quero fazer previsão, mas posso dizer que o presidente Bush tem sido sempre contra as tarifas e sempre a favor de abrir nosso mercado mais e mais. Mas isso requer muita negociação e trabalho com o Congresso. Na área de energia, temos duas coisas para aprender com o Brasil. Uma é a disposição de produzir mais petróleo próprio. Nós temos mais petróleo nas costas leste e oeste e na costa do Golfo do México, e podemos ampliar a produção nacional, exatamente como o Brasil vem fazendo. A outra coisa é a diversificação no campo da energia. O Brasil é um grande exemplo com o trabalho que fez com o etanol.

E quanto ao aço brasileiro, o senhor tem previsão? Nossa indústria siderúrgica enfrentava sérios problemas quando o presidente Bush assumiu seu primeiro mandato. Mas ele tomou medidas que conseguiram consolidar essa indústria, que hoje recebe investimentos estrangeiros e está com boa saúde. Mas, falando em geral, não especificamente sobre o aço ou o etanol, ressalto que o presidente Bush tem sido sempre favorável à abertura. Não mantemos políticas que levem ao isolamento econômico. Infelizmente, há membros no Congresso que pensam o contrário, que defendem o isolamento econômico. Temos um acordo de livre-comércio com a Colômbia há muito tempo e até hoje não conseguimos aprová-lo no Congresso. O isolamento e o protecionismo são um debate permanente nos Estados Unidos.

O senhor acha que a crise está tornando os americanos mais xenófobos? Isso é um desafio. Com o mercado financeiro enfrentando problemas, o livre-comércio, a abertura e o investimento estrangeiro ficam mais importantes, e não menos. Por isso, o isolamento é tão perigoso. O desafio político é evitar um recuo. É um desafio para nós e para o mundo.

O eleitorado americano aplaude quando um candidato culpa o livre-comércio pelo aumento do desemprego. As pessoas aplaudem esse tipo de crítica, aplaudem esse tipo de discurso, mas a verdade é que não conhecem os números. Quando o presidente Bush assumiu, tínhamos acordos de livre-comércio com apenas três países. Hoje, temos com catorze. Fizemos onze novos tratados e há ainda outros pendentes. Com esses onze países, tínhamos um superávit de 3 bilhões de dólares. No ano passado, foi de 22 bilhões de dólares. É evidente que o livre-comércio tem impacto positivo para ambos os lados. Como eu disse, o Chile tem cerca de cinqüenta acordos de livre-comércio. A União Européia em breve terá bem mais de vinte. A China está negociando muito rapidamente. O mundo todo está assim. Os Estados Unidos precisam se mexer também.

Entre os chamados Brics, quem tem futuro mais promissor: Brasil, Rússia, Índia ou China? São quatro países muito diferentes entre si. Acho que o Brasil se destaca em duas coisas: tem empresas globais e uma boa política energética. Ter empresas globais é relevante hoje. O Brasil tem, por exemplo, a Embraer. Com freqüência, em minhas viagens pelos Estados Unidos, vôo em aviões da Embraer. Já a política energética do Brasil é inteligente porque se desenvolveu de tal modo que o país não se transformou numa economia energética, numa economia voltada apenas para a energia. Ao contrário, o país se diversificou. A Rússia, cuja economia é curiosamente do mesmo tamanho da brasileira, tende a ser um país mais focado em energia. A Índia pode incrementar seu comércio, pode abrir-se mais, porque tem um potencial enorme. A China é o que mais cresce dos quatro. Mas nada está garantido para ninguém. Tudo vai depender das políticas que esses países adotarem.

Qual é sua aposta para daqui a dez anos? Daqui a dez anos vamos olhar para trás e veremos que a economia mais bem-sucedida terá sido aquela que tiver feito o dever de casa. Ou seja: a economia que tiver se empenhado em atrair investimento estrangeiro, abrir as portas para o comércio, incentivar as pequenas empresas, manter os impostos baixos, ficar mais transparente, respeitar o direito de propriedade e a propriedade intelectual. Os quatro países estão, com variações de grau, trilhando mais ou menos o mesmo caminho.

Qual é o negócio do futuro? Energia. Não há dúvida de que a energia, a tecnologia energética, a tecnologia de energia limpa, tudo isso vai ser um enorme, um imenso negócio no futuro. Mas há muitos negócios no mundo. Infra-estrutura, por exemplo. Há muitos países construindo portos, aeroportos, estradas, que são instrumentos fundamentais para ampliar o comércio. As commodities também são um grande negócio porque as classes médias no mundo estão crescendo, consumindo mais. O turismo é um setor importante. As melhores oportunidades se abrirão para aqueles que reconhecerem que a livre-iniciativa e o setor privado vão dirigir as economias. Estará no caminho errado quem achar que o governo central cria empregos e promove o crescimento.

O senhor come cereais da Kellog no café-da-manhã? Tenho o hábito de comer cereais de manhã, mas agora posso comer cereais de qualquer marca... Estou liberado!
http://veja.abril.com.br/151008/entrevista.shtml

Panorama da política e da literatura latino-americana

Análise das causas e efeitos do poderio econômico dos EUA

Antonio Negri
16/12/2003
O filósofo e sociólogo faz uma interessante análise das causas e efeitos do poderio econômico dos EUA e de seu império contemporâneo. Fala também de sua polêmica trajetória política e de seus anos na prisão.

Valéria Grillo [comentarista]: Já são quase cinqüenta anos na militância de esquerda. Filho de um comunista morto pelos fascistas nos anos 30, Antonio Negri aos 22 anos de idade já era professor de filosofia política e secretário do Partido Socialista da cidade italiana de Pádua, onde nasceu. Nos anos 60, participou de movimentos operários e estudantis. Fundou com outros intelectuais o movimento conhecido na Itália como Autonomia Operária [movimento que organizava manifestações políticas e sociais consideradas violentas e subversivas na Itália da década de 70]. Tanta militância custou a Toni Negri, em 79, a acusação de envolvimento com as Brigadas Vermelhas [Brigate Rosse], grupo armado responsável por dezenas de atentados terroristas na Itália nos anos 70. Inclusive o seqüestro e morte do deputado Aldo Moro [em 1978], presidente da Democracia Cristã Italiana na época. Acusado de ser um dos líderes das Brigadas, Toni Negri foi preso. Quatro anos depois, conseguiu se eleger deputado dentro da cadeia. Libertado por conta da imunidade parlamentar, que logo foi cassada, exilou-se em Paris durante 14 anos, onde trabalhou como professor universitário. Resolveu retornar a Roma em 1997, sabendo que seria preso de novo, apesar de nunca ter sido provada nos tribunais sua ligação com a luta armada. Ele voltou à prisão num episódio que, como ele queria, reabriu a discussão sobre presos políticos e anistia na Itália. Libertado definitivamente em abril último, o professor Toni Negri veio ao Brasil em sua primeira viagem fora da Europa nos últimos 25 anos. Participou, no Rio de Janeiro, do lançamento da edição brasileira da revista Global [considerada um espaço de aproximação transnacional que conecta ativistas, artistas, professores, intelectuais, empresários, trabalhadores, novos movimentos sociais e estudantes com uma outra visão das dinâmicas da globalização] e fez uma conferência, “As multidões e o império”, tema presente em seus últimos livros, onde coloca suas idéias e críticas sobre globalização da guerra e universalização dos direitos.
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Toni Negri: Acho que houve uma grande mudança no panorama mundial depois do 11 de setembro, mas isso não significa que o esquema, a tendência de estabelecimento do império tenha sido freada. A administração de George W. Bush [presidente dos estados Unidos entre 2001 a 2004, reeleito em 2005 para governar até 2009, filho do ex-presidente George Herbert Walker Bush que governou de 1989 a 1993] tentou um golpe de Estado contra o império. Quando havíamos escrito O império, dissemos: “Aqui existe um mercado mundial unificado, globalizado, há o problema de construir sobre esse globo unificado um sistema de regras. Um mercado sozinho não pode funcionar. Alguém deve impor regras a esse mercado". Nós previmos que o conjunto das potências capitalistas, o conjunto dos agentes do desenvolvimento capitalista criasse - de maneira plural, mas sólida e forte - uma ordem, uma produção de regras e normas, uma formação de direito novo sobre esse mercado unificado. Claro que isso não agradava a certas frações do capitalismo mundial, em particular a Bush. E eles conseguiram, com uma provocação incrivelmente forte, extremamente dura...

Paulo Markun: Que cada dia parece mais absurda!

Toni Negri: Os Estados Unidos são uma potência insular, nunca tinham sofrido um ataque. Foi a primeira vez que enfrentaram uma coisa do gênero em seu próprio território, conseqüência, talvez, como aconteceu com muitas outras potências imperialistas, européias ou não, de políticas imperialistas passadas. Sem dúvida, foi completamente inesperado, foi completamente terrível do ponto de vista psicológico. A resposta foi adequada à provocação, mas foi exasperada. Provavelmente de uma resposta que, de fato, não tem capacidade de sucesso. Acho que, hoje, que já se passaram dois anos daquele 11 de setembro, podemos começar a dizer que o golpe de Estado não está dando certo. Os Estados Unidos são uma grande potência militar, podem vencer a guerra, mas não conseguem vencer a paz. Quando falamos de império, falamos de um governo misto, no qual uma monarquia se unia a uma aristocracia e também a estímulos democráticos. Retomávamos, em termos modernos, ou melhor, pós-modernos, a tipologia criada por Políbio para o Império Romano. Os Estados Unidos se arrogaram o direito monárquico, mas provavelmente outros elementos importantes, sobretudo as multinacionais capitalistas, que criaram uma rede de controle real do mercado, não permitem isso. Os Estados Unidos não têm dinheiro para pagar a guerra. É um paradoxo. Fomos educados para achar que o deus dólar podia tudo. Na verdade, o deus euro é um rebento, um deus malditamente jovem, que pode iniciar grandes guerras comerciais. E os pequenos, pequeníssimos deuses asiáticos, o iuane [moeda chinesa] e o iene [moeda japonesa], são moedas que... Agora, o presidente Bush pediu uma reavaliação, para poder sustentar o dólar. A situação mundial é irreversível, assim como o mecanismo para estabelecer o império. A resposta à sua pergunta inicial é não.

Vicente Adorno: Professor, o senhor mencionou um golpe de Estado que o governo de George W. Bush teria dado. Que golpe de Estado teria sido esse?

Toni Negri: O tipo de golpe de Estado é muito claro. Foi subversão da ordem jurídica internacional. A guerra foi colocada como elemento de fundamento do direito, com relação à legislação internacional vestfaliana [respeito aos princípios da soberania estatal e do Estado nação]. A Vestfália [Tratado de Paz de Vestfália, 1648, que pôs fim à Guerra dos 30 anos envolvendo a Alemanha, França e Suécia] se refere à fundação de um direito internacional contratual entre as nações. Impor o direito à guerra, o direito à antecipação da guerra, contra qualquer outro tipo de intervenção permitido significa, evidentemente, uma ação definível em termos próprios como golpe de Estado. É um golpe de Estado em termos específicos. Claro, aceitando a fantasia de que o governo do império tenha uma dimensão unitária. Acho que, de fato, a ação americana tenha sido uma ação na qual... Alguns amigos me disseram que era o 18 Brumário de George W. Bush, numa alusão ao 18 Brumário [golpe de Estado articulado pelos girondinos, representantes de setores da alta burguesia, junto ao exército, e que colocou Napoleão Bonaparte no comando da França revolucionária], quando Napoleão chegou ao poder no segundo império francês, que Marx, por um lado, analisou bem e, por outro, ridicularizou [referência ao texto O 18 Brumário de Luís Bonaparte, em que Marx afirma: "Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." Luís Bonaparte era sobrinho de Napoleão e articulou também um golpe de Estado]. Acho que há algo de sábio por trás de uma coisa assim, porque não se trata apenas de desrespeitar o direito. Trata-se de uma escolha estranha dos dirigentes americanos com relação às multinacionais, à aristocracia mundial. Vale dizer, um apoio a forças corporativas internas, à siderurgia, às grandes empresas da área militar, do bloco... Eram coisas que pareciam, nos governos anteriores, a partir de governos republicanos como o de Reagan [Ronald Wilson Reagan, presidente dos Estados Unidos, 1981-1989], absolutamente superadas diante da nova tessitura das relações políticas mundiais e das relações industriais em escala mundial. Desse ponto de vista, respeitados os limites que toda comparação tem, há algo de verdadeiro nisso. O que me interessa é entender o que vai acontecer depois. Tenho impressão que a resistência a confrontar essa política americana está passando. E note bem: não estou falando ainda da resistência que as massas, a democracia, as pessoas que querem a paz interpõem a essa política. Estou falando simplesmente das contradições internas do sistema capitalista.

Demétrio Magnoli: Professor, eu queria transferir a discussão nesse momento para trinta anos atrás. Eu falo dos anos 70, os anos de chumbo ["anni di piombi", período caracterizado por conflitos sociais e os atos terroristas atribuídos à direita e à esquerda radicais] na Itália, quando o governo da Democracia Cristã [DC] reprimia com violência o movimento de operários, jovens estudantes que tinham começado no fundo dos anos 60, e o Partido Comunista Italiano [PCI] apoiava essa repressão e se propunha a governar junto com a democracia cristã através do compromisso histórico. O senhor muitas vezes aponta a responsabilidade histórica da Democracia Cristã e do Partido Comunista Italiano por essa repressão que conduziu a Itália a uma verdadeira tragédia, como nação e há tragédias particulares dos estudantes, dos jovens, os operários que arruinaram a sua vida na prisão, a partir da luta armada naquela época. Eu acho que é muito justo apontar a responsabilidade da Democracia Cristã e do Partido Comunista Italiano, os dois grandes partidos da Itália. Mas o senhor é menos claro quando se refere às responsabilidades políticas da oposição, em particular, das Brigadas Vermelhas. O senhor foi falsamente acusado e preso sobre essa falsa acusação de ter sido das Brigadas Vermelhas. A acusação falsa da polícia italiana não elimina, entretanto o debate político atual. O senhor classificava, pelo que vi em entrevistas classifica até hoje, as Brigadas Vermelhas como um movimento proletário [classe social que vendem sua força de trabalho para os donos dos meios de produção, os burgueses]. Eu queria que o senhor justificasse isso, porque as Brigadas Vermelhas vão lançar uma campanha de violência e terrorismo individual contra políticos, líderes conservadores, policiais... que vai ser uma parte grande dessa tragédia. Então, eu queria discutir o que foram as Brigadas Vermelhas, qual a responsabilidades delas nessa tragédia? E ao mesmo tempo, uma segunda pergunta, discutir a sua responsabilidade como intelectual e como líder político naquela época. Naquela época o senhor escrevia “hoje apenas a luta armada fala pelo comunismo”. Isso aparece num texto do senhor que se chama “Partido operário contra il lavoro”. Isso quando as paredes das faculdades estavam pichadas com frases como “a metralhadora é linda”. Então eu queria discutir a sua responsabilidade histórica, política e moral naquele processo. Porque eu acho que fazer um balanço dos anos 60 e 70 na Itália, particular dos anos 70 implica não apenas discutir o Partido Comunista Italiano e a Democracia Cristã, claro que implica isso, mas implica discutir a responsabilidade dos líderes políticos e intelectuais do movimento de oposição.

Toni Negri: Acho que sua pergunta é correta e abrange o quadro completo da situação italiana na época, provavelmente esquecendo uma coisa. Sua pergunta não considera que, no início dos anos 1970, em nível mundial, foi decidido que a democracia deveria ter limites. Vou citar o título de um texto de Samuel Huntington [polêmico cientista norte-americano ligado à direit conservadora, destacando-se entre suas obras O choque das civilizações], grande conselheiro, inclusive hoje, no governo Bush. O texto foi escrito com um estudioso japonês, Joji Watanuki, e com um estudioso francês, Michel Crozier [Huntington, Watanuki e Crozier representavam a elite política e econômica internacional e eram membros da Comissão Trilateral, 1973, órgão privado de consulta e orientação para a política internacional dos países da tríade: Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão]. É o inicio do neoliberalismo em nível mundial. Em 1973 tivemos o Chile, em 1969, 69 [gesto seis nove], um ano depois da insurreição de Paris [maio de 1968, o movimento dos estudantes dava início à maior revolta popular ocorrida na capital francesa desde os tempos da Comuna de 1871] e um ano depois da retomada das lutas operárias na Itália, tivemos a primeira bomba colocada num banco, ato da polícia italiana apoiado pela CIA [Central Intelligence Agency - Agência Central de Inteligência]. Isso continuou por 10 anos, porque o 68 na Itália se prolongou por 10 anos. Dez anos belíssimos, que não foram anos apenas de violência, foram anos de construção de uma vida diferente, foram anos nos quais a alma das pessoas, das pessoas pobres, mudou. Entre outras coisas, isso aumentou a produtividade, aumentou a riqueza. Ela não diminuiu. Nesses anos foi inventado o milagre econômico do nordeste italiano [final da década de 1960 a 1980], uma empreitada difundida pelo território. Os operários que eram demitidos por ser considerados comunistas inventavam uma produção. Punham para trabalhar filhos, esposas, tias e avós, irmãos também, e criaram esse milagre econômico incrível, que foi classificado como o terceiro modelo mundial, que os tigres asiáticos retomaram. Eles tinham a incrível capacidade de defender interesses próprios, como classe operária, como gente trabalhadora, de fazer isso com alegria e dizer: “Não precisamos que ninguém nos comande”. Esse foi o período de 10 anos após 1968 na Itália. Garanto que contra esse modelo italiano aconteceu de tudo. Foram colocadas bombas. O Partido Comunista Italiano, ligado à classe operária, não conseguia entender isso. A classe operária estava lá, e era preciso explicar a ela que as coisas estavam mudando. Eu me lembro, por exemplo, de ir com meus companheiros para a Alfa Romeo [indústria automobilística], uma grande fábrica perto de Milão. Nós íamos com os companheiros e levávamos estudantes, com jovens desempregados e em frente à fábrica dizíamos: “Eles querem trabalhar”. Sabe o que nos respondiam? “Nós operários vamos trabalhar até aos sábados para conseguir superar a crise do capitalismo”. Em vez de abrir, de receber as pessoas, de dar emprego a elas. Nós vimos que estávamos contra todos. Sim, a esse ponto eu disse frases como: “Sem dúvida, só a violência”... E por quê? Por quê? Posso falar sobre isso, porque fui até condenado por isso. No primeiro sábado, claro, os sindicatos fizeram a fábrica operar, mas no segundo sábado não conseguiram, porque causamos o blecaute na fábrica. É um erro? Sem dúvida. Uma delinqüência? Sem dúvida. No entanto, a situação era tal acabava legitimando isso. Eu reivindico essas coisas, sempre reivindiquei, sempre reivindiquei uma ação de justiça. Quanto às Brigadas Vermelhas, não há dúvida que eram proletárias. Elas não eram a expressão da CIA, eram a expressão do proletariado italiano, e esse proletariado italiano errava. Eles resolveram agir, resolveram apelar para o terrorismo, e não era possível, porque as relações de forças na Itália não permitiam isso, e não só as relações de forças mas também as relações morais, éticas e culturais não permitiam. Quando me refiro ao proletariado dou a definição sociológica, não expresso um valor. Portanto, os anos 70 seguramente, na Itália, foram muito pesados, eu paguei por isso com 17 anos de prisão. Cumpri a pena tranqüilamente, não pedi nada ao Estado, não dei nada ao Estado, acredito que eu tinha razão e que as idéias que defendíamos eram justas. Justas porque revolução e reforma, reforma e revolução são coisas extremamente ligadas. Não há ideologia nisso, mas simplesmente a transformação do homem, uma capacidade maior de desejos, de alegria, uma coisa inata, que está ali no meio. Foi isso que aconteceu nos anos 1970. Certamente os bairros ocupados de Milão, onde a polícia não podia entrar, não eram como as favelas que vi aqui, eram lugares onde se tinha prazer.

Demétrio Magnoli: Só para completar. Hoje foram abertos os arquivos da Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental e hoje está comprovado que através da pesquisa histórica nesses arquivos da Stasi que a polícia política da Alemanha Oriental financiava as Brigadas Vermelhas...

Toni Negri: É mentira, é mentira, é mentira...

Demétrio Magnoli: Isso hoje há uma comprovação documental disso.

Toni Negri: É mentira. Dá para provar? Foi provado que eles financiavam a RAF (Fração do Exército Vermelho, grupo terrorista alemão dos anos 1970], mas não foi provado. As Brigadas Vermelhas são movimentos proletários italianos. Ninguém... Houve dezenas e dezenas de comissões...

Demétrio Magnoli: Não, isso é documento

Toni Negri: Eles são malucos! Eram italianas e só. Os italianos são muito malucos às vezes

Giuseppe Cocco: Para voltar à Itália exatamente. Uma perspectiva que, digamos, retome essa periodização, mas digamos abrindo essa periodização dos anos 70, não apenas um balanço policialesco, mas como uma perspectiva diferente com relação à luta política e luta social que iam juntas naqueles anos. Eu lembro exatamente que naqueles anos, naquela década em particular, a partir da segunda metade dos anos 70, o debate se fazia em torno às questões ligadas à reestruturação produtiva e à defesa do emprego industrial. E que exatamente, o que era já o embrião de formas, de movimentos diferentes [que] apontavam para uma transformação mais importante, que não era uma mera reorganização do trabalho industrial, mas um deslocamento, digamos, que implicava não apenas a crise do emprego, mas uma reconfiguração do trabalho. Vinte ou trinta anos depois, o que você acha com relação a esse debate sobre reestruturação e crise do emprego, na relação salarial, novas formas de trabalho? O que é possível dizer?

Toni Negri: No fundo, são coisas sobre as quais escrevi bastante e que agora retomo. Acho efetivamente que os operários que trabalhavam nas fábricas - para dar uma perspectiva genealógica - os operários que trabalhavam nas fábricas não queriam que os filhos trabalhassem nas fábricas também. Eles queriam que os filhos fossem à escola, à universidade. Queriam transformar as fábricas e o trabalho em alguma coisa menos pesada, alguma coisa mais produtiva, algum coisa mais satisfatória para suas vidas. Acho que as lutas dos anos 1970, não apenas na Itália, mas praticamente em todo o mundo capitalista desenvolvido, impuseram a passagem da produção fordista clássica [referente a Henry Ford], ou seja, da produção feita de maneira disciplinar, nas linhas de montagem em locais definidos, nos quais a classe operária se constituía como tal, com todo um mundo ao redor, que era condicionado por essa forma de cooperação. Depois veio uma outra fase, dominada pela “nova economia”, uma nova organização do trabalho, a organização pós-fordista [caracterizada por um novo modelo de produção, utilizando novas tecnologias na automação, mais flexíveis e informatizados], que é totalmente implantada sobre trabalhos imateriais intelectuais, isto é, sobre o fato de que os filhos dos operários conseguiram passar a outra fase, a outro momento de produção. Eles conseguiram, com muitas dificuldades, mudar as condições gerais da reprodução da sociedade. Esse é o problema que temos hoje, claro. O que posso dizer, a não ser que essa passagem é irreversível acima de tudo? Em segundo lugar, é uma passagem que criou uma situação absolutamente crítica. Nenhum de nós, na realidade, sabe quais serão os modelos segundo os quais essa sociedade poderá se organizar definitiva e plenamente, de modo contínuo, mas todos sabemos que, por exemplo, a liberdade é fundamental nesses processos. É fundamental porque, sem liberdade, não há capacidade de raciocinar, de colocar a própria força criativa, que integra e substitui a força de trabalho pura e simples dentro dessas novas redes de produção. Sabemos que a cooperação é fundamental, porque uma pessoa não pode sozinha produzir valor, mas, singularmente, agrega um elemento precioso à produção. É assim que nasce o conceito de massa, diante do conceito de classe operária, o velho conceito de classe operária. A massa é uma multiplicidade de singularidades criativas, inseridas no processo produtivo, na medida em que são criativas e cooperativas. Acho que isso é muito bonito e que foi imposto pelas lutas. É verdade, como foi dito aqui, que as lutas foram violentas, foram terríveis em certos momentos, mas também é verdade que o capital perdeu com isso. Nos anos 1970, apesar da repressão, o patronato perdeu, o capital perdeu. O capital estava muito bem com seu sistema disciplinar, assim como estava bem com seu sistema nacional. O capital e a nação, o capital e a disciplina, o capital e seus distritos de trabalho [gesticula com os braços e com as mãos], que eram controlados pela polícia por fora, os padres por dentro e um certo tipo de cultura. Perfeito. Eles tiveram de abandonar isso e se aventurar com o novo. Eu gosto disso. E viva a luta operária!

Paulo Markun: Tem certos momentos em que na verdade nesse programa eu me sinto mais ou menos como aquele cientista da anedota a quem foi pedido para que explicasse a teoria da relatividade, diante de um lago com um cisne. O cientista disse: “É como explicar para um cego o que é um lago e o que é um cisne, é extremamente complicado”. Ou seja, não há como escapar das simplificações. E eu vou partir para mais uma delas. A sensação que me deu o seu livro Império, é que na verdade há uma clara descrição do que é o processo econômico e social que a gente vive, as transformações desse processo, mas ao mesmo tempo passa, a mim, a sensação de que fica um pouco nebuloso quem é esse novo militante, que forma é essa de luta que é possível transformar o império em alguma coisa do bem, como se diz aqui. E na revista Global America Latina que o senhor veio lançar aqui no Brasil há uma reportagem ou um texto que menciona o protesto acontecido em Salvador, na Bahia, um protesto de estudantes contra os preços das passagens de ônibus e que eu tive a oportunidade, por eu estar em Salvador na ocasião, de presenciar. E a sensação que eu tive lá em Salvador foi exatamente a mesma que me passou a leitura do seu livro. É difícil compreender que aquele grupo de estudantes anárquicos, aparentemente sem comando nenhum, e que pararam uma cidade, muitos deles, boa parte deles dos melhores colégios de Salvador, dos colégios mais ricos de Salvador, que esses estudantes representassem a vanguarda da revolução, para usar um termo desgastado também. Então o que eu queria que o senhor explicasse é isso, quer dizer, como que é que diante de um poder tão gigantesco, que nem se quer tem endereço fixo mais, que domina o mundo no jogo de computadores e de dinheiro que circula mundialmente, é possível pensar na revolta e na rebelião de grupos como estudantes de Salvador ou talvez, agora, os estudantes da Bolívia que protestam contra a venda de gás para os Estados Unidos ou algo assim. Não é uma disparidade gigantesca de forças que faz parecer com que esses grupos sejam na verdade brincadeira de criança?

Toni Negri: Freqüentemente, você nem imagina quantas vezes compartilho da sua ironia. O que eu não permitiria seria ver essa ironia transformada em cinismo, ou seja, na capacidade de deixar tudo igual. Em qualquer uma dessas coisas sempre existe uma centelha de vida. Pense nos anos 1990, por exemplo. Vimos uma série de revoltas no mundo, até mais importantes do que as que estão documentadas na revista Global, ou talvez tão importante quanto o que acontece na Bolívia, mas que hoje parecem não ter sentido. Eles eram, depois da queda do Muro de Berlim... [1989, foi destruído o muro, barreira construída em 1961 e que separava a cidade de Berlim, capital da Alemanha, em dois setores: um setor capitalista e outro comunista. A queda do muro marca simbolicamente o fim da Guerra Fria, que polarizou os dois sistemas econômicos] O muro de Berlim não sofreu uma queda, uma coisa quase objetiva. O que houve foi uma luta. Ele foi cercado. A população saía da Alemanha Oriental, passava pela Hungria, entrava pelo outro lado. O muro foi cercado. Depois veio a Praça da Paz Celestial [Praça Tiananmen, no centro da cidade de Pequim, capital da China, usada para desfiles do governo da China, conhecida pelo protesto de estudantes pró-democracia em 1989], então a Revolta de Chiapas [1994, rebelião indígena e camponesa na cidade mexicana de Chiapas], a Revolta de Los Angeles [1992, revolta generalizada derivada de agressão policial a jovem negro], do gueto, e dezenas de outras lutas, até, por exemplo, a luta de 1995-1996 em Paris, que era uma luta contra a privatização dos transportes públicos parisienses. Todas essas lutas pareciam separadas e insensatas, impotentes diante de um poder que impedia sua comunicação. Ninguém teria sido tão burro naquele momento para falar de um ciclo de lutas. Eu, por exemplo, sou comunista, sou marxista, estou acostumado a falar, ainda que de modo renovado. São poucos marxistas que reconheceriam em mim essa qualidade, de um modo renovado pelas experiências recentes, mas continuo preso à idéia do ciclo de lutas. O que é um ciclo de lutas? Por exemplo, depois de 1905 houve um ciclo de lutas que começou na Rússia, com a constituição dos sovietes [conselhos de fábricas e de aldeias que elegiam os representantes para os conselhos regionais, que, por sua vez, se organizam nacionalmente no Congresso dos Sovietes de Operários, Soldados e Camponeses], que atravessou a Europa com lutas absolutamente ferozes. Em todo lugar houve tentativas de insurreição, mortes, lutas sindicais, coisas assim. E, sobretudo, a ampliação de uma idéia: a idéia de que os operários qualificados, skilled workers, poderiam gerir a fábrica por conhecê-la melhor que os donos. Essa luta chegou inclusive aos Estados Unidos, por meio dos artistas da IWW [Industrial Workers of the World, organização sindicalista norte-americana, fundada em 1905], Trabalhadores Industriais do Mundo, que atravessavam os Estados Unidos e instituíam luta nas estações de trem nas quais desembarcavam. Eram imigrantes europeus que estavam lá. Em 1917, houve outra pequena luta que começou na Rússia, que havia sido vitoriosa em Petrogrado [originalmente São Petesburgo e, mais tarde, Leningrado] e Moscou e que se estendeu pelo mundo. Em Turim, houve conselhos de fábrica, assim como na Baviera e em outros lugares. Nos anos 1930, igualmente, houve outros ciclos de lutas. Em 1917, a luta tinha chegado até a fábrica Pullman, em Seattle [maior cidade do estado de Washington, Estados Unidos, centro da indústria aeroespacial, onde aconteceram muitos protestos antiglobalização em 1999]. Tudo indo nesse passo, foi indo nesse passo... Houve lutas nos anos 1930, nos anos 1940, luta contra o fascismo... Depois do fascismo, as lutas no Vietnã até 1968. Depois dos anos 1970, já não reconhecíamos nenhuma luta. Víamos todas separadas. E por quê? Porque não havia mais a URSS para reuni-las, não havia a Internacional Comunista [organização internacional, fundada em 1919, reunia os partidos comunistas de diversos países]. Não. Dessa vez foi Seattle e pronto. Todas as lutas dos anos 1990 nós pudemos compreender de novo dentro de um ciclo unitário, que dá valor inclusive às lutas de Salvador, que dá um enorme valor às lutas bolivianas, que recompõe todas elas num ciclo geral, e esse ciclo nos diz o quê? As massas hoje são intelectuais, não há diferença entre o operário e o estudante, porque o trabalho está se tornando intelectual e elas têm a capacidade de recompor uma potência e, portanto, de colocar em crise os mecanismos de valorização capitalista, que são os mecanismos que restam, que são velhos. Hoje a modernização não é trazida pelo capital. O capital envelheceu, não é mais capaz. O capital quer se fazer representar por Bush, pelas bolsas. Isso já não é possível. Como é possível vir ao Brasil e ver uma convivência perfeita de um Primeiro Mundo, repleto de arranha-céus, força e inteligência, com uma miséria espantosa? Como é possível? É a primeira vez que venho ao Brasil, mas estou completamente... Eu fico assim. Encontro aqui o mundo inteiro, aquilo que vi estudando, eu encontro concentrado aqui, no Rio de Janeiro, não sei. Como é possível viver assim? Um capital, um comando que mantém essa situação... Isso está fora da graças de Deus. Não posso... Os meus desejos, minhas sensações normais de um homem que vive pedindo apenas o bom senso, não pode aceitar essas coisas.

Peter Pál Pelbart: Uma vez você reclamou que as pessoas se acercavam de você com expectativa de ouvir palavras de esperança. E você fez questão de explicitar que você não é um sacerdote spinozista [referente à filosofia de Spinoza, que concebe o mundo como uma emanação da divindade: Deus e todo o universo são uma única coisa].

Peter Pál Pelbart: Você dizia que não cabe a vocês exprimir retóricas de alegria e super abundância e que a função da teoria não é reconfortar ninguém, nem se quer dar a mão a quem quer que seja. Por vezes, aliás, você parece tirar partido de um certo desencanto, de um certo esvaziamento, não para deleitar-se numa volúpia, como faz parte do pensamento pós-moderno, mas para assinalar que algo de fato se esgotou. Uma época, um ciclo, um paradigma e que o pior seria se entrincheirar naquilo que está caducando. Seria preciso admitir um vazio, diz você, não é uma palavra muito freqüente do discurso político, mas o vazio que você indica diferentemente do vazio depressivo, parece ser uma espécie de indeterminação, a idéia de que está tudo em aberto. Desutopia diz você, quer dizer, é um vazio que permite um princípio novo, um desejo autônomo, um procedimento absoluto como você diz. Então, você tenta pensar a partir deste vazio e dessa abertura uma potência que não seja, diz você, nem subordinada à necessidade, nem ao ressentimento, nem à compaixão. É um desafio extraordinário esse. Em todo caso tem uma recusa de princípio de preencher de maneira voluntarista ou nostálgica esse vazio e essa abertura. E por outro lado também, tem uma insistência clara em afirmar a pulsão ética, a sua paixão construtiva. Eu acho que isso tudo confunde o baralho pós-moderno, essa sua posição. Então eu acho que você não é nenhum lírico leopardiano [referente ao poeta italiano Giacomo Leopardi], nem sacerdote spinozista, mas o seu comunismo parece mover-se entre esses dois extremos. Então eu queria te perguntar, a partir desse horizonte, do vazio e da desutopia e dessa pulsão ética, qual é a sua idéia de comunismo?

Toni Negri: Tenho uma idéia muito elementar do comunismo. Acho que o comunismo é um pressuposto. É como a linguagem. Se não tivéssemos a linguagem, alguma coisa em comum, uma base, não conseguiríamos nos expressar. Quando penso, por exemplo, na Economia, penso numa coisa baseada fundamentalmente no nosso trabalho, que reproduz continuamente bens e serviços, produz novas mercadorias, introduz conhecimento e inovação no mecanismo, no processo econômico. Na verdade é um processo que se baseia na comunhão. Uma cooperação e uma solidariedade preventivas. O fato de alguém se dizer dono de alguma coisa não dá para entender por quê. Se simplesmente conseguíssemos exprimir esse comunismo, faríamos desse comunismo... Um elemento fundamental do discurso comunista hoje é a discussão do faro de que estamos produzindo... Pense neste exemplo. Um exemplo que eu considero clássico. A comuna composta pela comunidade informática. Foi criada essa comuna informática, um enorme tecido de possibilidades, expressivas que nos foram dadas. É uma comuna, certo? É a condição de toda a nossa capacidade expressiva hoje, e isso vai se acentuar sempre mais, da nossa cooperação. É uma base material, ainda que etérea, mas é uma base material da nossa expressão. Hoje estamos diante disso. Ainda bem que em Cancún [referÇencia sobre a reunião da Organização Mundial do Comércio] a briga foi sobre agricultura, senão eles teriam se metido nesse assunto. Era o projeto. Eles teriam privatizado ou, como eu costumo dizer, “refeudalizado” esse elemento comum que nós construímos. Não se trata simplesmente... Isto é... Quando falamos dos elementos naturais, socráticos, ar, água, terra e fogo, falamos de quatro coisas naturais que nós reconstruímos por meio da atividade humana e de séculos de civilização, devemos ter domínio sobre isso. Isso é o comunismo. Naturalmente, tudo isso feito com alegria. A alegria é a ausência de..., é a interiorização da capacidade de conviver, a alegria é como o amor. Desse ponto de vista, eu sou muito spinozista. Segundo Spinoza, a alegria é a forma de expressão do amor. O amor não é o meu amor por Maria, Giovanna e Michela, nem pelas três juntas. É um amor que constrói, porque é um amor de conhecimento e, portanto, de cooperação, de construção. A alegria é isso, é conhecer, construir etc. Voltando um pouco, estamos vivendo e por isso é difícil definir o comunismo. Antigamente podíamos dizer: “O comunismo é...”, e eu me disponho a repetir isso. Note bem, o comunismo é o fato de constituir um governo que seja um governo da propriedade comum, conduzido por conselhos de trabalhadores, que podem ser argüidos e controlados por serem transparentes, mas capazes de tomar decisões. Da Comuna de Paris ao Estado de Lênin o comunismo foi... Por trás de todas as coisas feias, das violências e dos absurdos que houve, sempre houve uma utopia. Hoje é muito difícil dizer isso, porque estamos numa mudança enorme de época. Passamos do moderno ao pós-moderno. Todas as categorias do moderno estão acabando. Hoje falar de Estado, nação, povo e até de capital não faz mais sentido, ou faz pouco sentido. E falar de partidos, de massas, de militância, de certa forma, faz pouco sentido. Precisamos começar a criar termos novos. Não vamos fazer isso apenas pensando, mas atuando, construindo, revolucionando o mundo que nos cerca. Uma coisa formidável hoje é que as pessoas que pensam, falam, fazem demagogia e posam de profetas não importam nem um pouco. Junto com isso é preciso fazer, é preciso haver ação e provas, a realidade. Não precisamos de partidos que digam como será o mundo daqui a uns 100 anos. Não. Pouca coisa basta, mas que seja logo.

Ivana Bentes: Eu acho que há vários temas bastante perturbadores e fascinantes no Império. Um deles ele acabou de falar agora, quer dizer, na verdade não existe um fora do império, eu acho que isso é bastante perturbador para todo um discurso justamente de transcendência de um belo futuro que viria depois da revolução. Dentro dessas definições há um elemento, também muito caro ao próprio comunismo, ao discurso marxista, que é a sua visão do pobre e da pobreza no Império, que o senhor coloca como portadora de uma potência radical de invenção de transformação, exatamente porque quem não tem nada a perder pode tudo. O senhor visitou no Rio de Janeiro a favela da Maré, antes de vir para São Paulo, e levantou esse tema perturbador, de países como o Brasil com milhões de pobres, favelados, com contingentes de pessoas fora do sistema formal da produção. Que seria uma espécie de reserva, de energia gigantesca para a produção. Então há toda uma visão realmente de uma força vital que viria dessa pobreza. Ao mesmo tempo, a gente está hoje vivendo um momento no próprio Brasil, importante, de um discurso sobre a pobreza e sobre o pobre - e que são inclusive objetos de disputas diversas entre a igreja, os políticos, nos discursos publicitários, das ONGs, no assédio a essa massa, a esse contingente. Enfim, discursos que são variados, distintos, que muitas vezes produzem, entram em práticas conformistas, assistencialistas, destituem, digamos assim, essa força vital e radical de transformação que viria desses grupos. Eu queria que você falasse um pouco mais disso. Primeiro essa idéia da pobreza como força vital, para além da idéia da pobreza como ligada, associada geralmente ao crime, à violência, ao improdutivo, mas portadora não só do negativo, mas dessa linha de fundo.

Toni Negri: Parece-me que uma coisa que nos permitiria retomar um discurso seria a insistência quanto à concessão, quanto à experiência da pobreza. Naturalmente eu não gostaria que minhas impressões sobre esta breve experiência que tive no Brasil sejam mal interpretadas. Alguns elementos do nosso pensamento, da nossa vida, são apenas de compaixão, às vezes é assim. Algumas vezes se trata da incapacidade de suportar alguns espetáculos ou experiências. Dependendo da sua formação, isso tudo não pode se tornar um elemento teórico ou de consideração geral. O fato é que a pobreza no mundo é terrível, mas não apenas isso. Sempre me comovi muito com os grandes fluxos de imigração que vivi. Primeiro na Itália, do sul para o norte. Hoje vejo isso de novo na Europa. Gente do mundo inteiro vai para a Europa, numa tentativa de penetração no continente. Sem dúvida o capital se aproveita desses fluxos migratórios, explora isso. Por um lado exerce atração, por outro controla e restringe. É uma postura escravocrata normal. Essas pessoas são levadas em barcos, que atravessam o Atlântico, o Mediterrâneo e o Pacífico e, quando chegam, são submetidas a uma disciplina férrea. [Isso] Os que chegam. Porque o Mediterrâneo, por exemplo, é um mar fundamentalmente bastante liberado para a imigração e se tornou um cemitério de imigrantes. Essa pobreza sempre traz riqueza, e isso acontece porque ela nasce no capital, como dizem os economistas, ou porque existe, porque tem em si uma capacidade de produção sempre mais clara e evidente. Acho que a economia contemporânea, na medida em que está se tornando biopolítica, ao insistir na reprodução social vital, deve considerar cada vez mais uma série de elementos fundamentais nas populações, ou seja, a capacidade de reprodução e geração, a capacidade de cuidar, a capacidade e a imaginação diversas quanto à natureza, à biodiversidade e a todos esses elementos, como momentos produtivos fundamentais. Esses imigrantes não são... Sabemos muito bem que eles não chegam à Alemanha, à Inglaterra ou aos Estados Unidos para trabalhar em fábricas [gesticulando muito com as mãos]. Não. Poucos vão montar automóveis nas fábricas, eles vão cuidar de crianças, vão ajudar em hospitais, vão reproduzir a vida. Essa é a questão que não se quer entender, não se quer entender que nessa pobreza há uma capacidade de amor que é enorme. Ela não é compreendida, evidentemente, porque todos os valores são reduzidos, salvo quando se pergunta sobre a criança, porque os burgueses às vezes tem essa curiosidade [risos]. Fora isso, só interessam o lucro, o dinheiro, a bolsa [de valores]. Fora isso, depois se descobre que esses imigrantes são uma incrível força de trabalho intelectual. Gente da Índia, do Magreb [região do norte de África, composta por Marrocos, Saara ocidental, Argélia e Tunísia, localizada ao norte do deserto de Saara e a oeste do rio Nilo], das Ilhas Maurício [localizadas no oceano Índico] e da África do Sul são os melhores técnicos em informática do mundo. Em Paris aconteceu uma coisa engraçada, queríamos traduzir a nossa revista em algum idioma e a mandávamos para as Ilhas Maurício, porque lá havia tipógrafos que faziam tudo por computador e em 25 línguas. Precisamos entender isso. Hoje a economia explora a vida. [Gesticula muito e usa um tom de voz muito enfático] A indústria, a velha indústria acabou. O velho capitalista, o construtor, o patrão isso acabou. Ele é tão antigo quanto a sua própria fábrica. Temos cemitérios de indústrias no mundo todo. A força de trabalho intelectual também é afetiva, afetiva. [Gesticula colocando o dedo indicador na sua fronte] Hoje, acima de tudo temos de pensar que a afetividade não é importante apenas para educar as crianças, mas para operar um computador. Você não consegue a cooperação no computador se não tiver capacidade afetiva suficiente no trato com seu interlocutor. Costumamos dizer que o trabalho está virando mulher, o trabalho como mulher é um conceito fundamental, mas não como conceito poético, como conceito econômico.

Rodolfo Konder: O senhor comemorou a queda do muro de Berlim e disse que o socialismo real, o sistema do socialismo real era monstruoso, a palavra que o senhor usou foi essa. Eu pergunto o seguinte: no atual estágio de desenvolvimento humano o senhor acha possível a construção de uma sociedade justa apoiada na comunhão? Acrescento: o senhor ainda acredita na bondade intrínseca da natureza humana? E faço ainda uma provocação, uma respeitosa provocação: será que este otimismo político não é um filho ilegítimo da nossa indignação e da nossa necessidade religiosa de acreditar numa vida futura melhor?

Toni Negri: Não sei bem. Na filosofia moderna há uma série de correntes pessimistas no que diz respeito à natureza do homem, e há uma série de correntes otimistas. Do ponto de vista teórico, acho que não há muita possibilidade de decidir se a natureza humana é boa ou má. Eu, evidentemente, opto pelo fato de que o homem pode ser bom ou mau, mas produz, é ativo. O fato de produzir e ser ativo me parece bom. Não quero falar sobre isso. Quero falar sobre outra questão. O que sempre me chamou a atenção é que as teorias que afirmam que o homem é mau são más. Eles usam a repressão, usam a autoridade, usam eventualmente a ditadura para fazer o homem entender que é mau. Isso eu não aceito. Isso é um pouco história do moderno, o moderno acabou depois que, de modo conflituoso, quem dizia que o homem era bom e quem dizia que ele era mau, brigaram por muitos séculos, o que gerou as mais monstruosas ditaduras. Quem achava que o homem era mau colocou esse processo em andamento. Processos de ditaduras que se chamaram nazismo e stalinismo. São coisas que espero não ver no pós-moderno.

Demétrio Magnoli: O senhor falou de autoridade, ditadura e também se falou de religião. Eu queria tentar fazer uma relação dessas coisas, porque em 1977 o senhor escreveu o ensaio intitulado "Dominação e sabotagem" sobre o método marxista de transformação social. E nesse ensaio há uma tentativa de definição do que são os comunistas. Ali o senhor escreve que os comunistas... O senhor compara os comunistas, vou citar entre aspas: “uma ordem religiosa combatente”, os comunistas seriam “uma outra raça”, nascida de uma “mãe virgem” e dedicada “a batalha entre a verdade e a falsidade”. Essa é a linguagem de um milenarismo [fanatismo, utopia religiosa], eu chamo a isso de um milenarismo técnico, vamos dizer assim, um milenarismo pós-moderno, é uma linguagem, uma cultura apocalíptica. A linguagem é importante na política, grande parte da política é linguagem. Então eu me pergunto o que há por traz dessa linguagem, quer dizer, ao se ver os comunistas como uma outra raça, filhos de uma mãe virgem, essa vanguarda separada da humanidade e portadora da verdade, dedicada à batalha entre a verdade e a falsidade eu pergunto: esses comunistas no poder, eles fuzilariam os inimigos da verdade?

Toni Negri: Veja, eu não apenas acho que essas frases são exageradas, mas também acho que por trás desse conceito há alguma coisa certa, correta. Hoje, por exemplo, eu acho que a resistência contra o capitalismo deve se transformar em êxodo. O que isso quer dizer? Quer dizer que essas instituições da democracia provavelmente não são mais utilizáveis para construir uma sociedade livre. As instituições da democracia, que conhecemos desde o séc. XVIII, são instituições que já tiveram seu momento, digo isso sem nenhuma arrogância, sem vulgaridade. Digo isso porque acredito que sejam instituições construídas sob condições sociológicas e produtivas muito diferentes das nossas. Hoje, por exemplo, sem dúvida a representação democrática, assim como a entendemos, não é simplesmente difícil, ela é praticamente impossível. Surgiram poderes que vão desde a onipotência capitalista, que antes se referia ao poder da mídia e da intermediação social, que são tão diferentes e novos com relação à época em que foi concebida a democracia, que esta acaba ficando, deste ponto de vista, difícil de imaginar a democracia constitucional, tradicional.

Paulo Markun: Mas há uma alternativa, existe uma alternativa?

Toni Negri: Essa é a questão. Eu queria dizer outra coisa a mais. Em nível mundial, visto que hoje estamos diante de uma condição global, há um problema de democracia global. Você sabe perfeitamente que o único órgão de democracia global que havia era a ONU [Organização das Nações Unidas]. Pois bem, não sou eu que estou questionando a ONU, é Bush, é o poder mundial, real e capitalista. Nesse momento entra a sua pergunta. Existe uma alternativa? Eu não vejo, ou melhor, vejo uma só alternativa: é Bush comandando o mundo.

Vicente Adorno: Parece mais ou menos a mesma alternativa de quando Stálin perguntou quantas divisões tem o Papa. [Isso] Quando disseram a ele que o Papa ia desaprovar o que ele estava fazendo.

Toni Negri: Perfeito.

Vicente Adorno: Talvez a fraqueza das Nações Unidas seja exatamente essa. Ela não tem como impor uma ordem seja ela qual for, se ela é justa ou se ela é exagerada, ou se ela é errada. Simplesmente mesmo com o arcabouço do Tribunal Penal Internacional [vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), compreende uma corte internacional permanente, sediada em Haia, na Holanda, e tem poderes para julgar políticos, chefes militares e mesmo pessoas comuns pela prática de violação do direito internacional humanitário: crimes de guerra, crimes contra a humanidade, de genocídio e de agressão] ao qual os Estados Unidos não querem aderir nunca, mesmo com todas essas tentativas acho que não é possível se chegar a esse ponto enquanto a ONU não for, digamos, uma instituição que se sustenta sozinha, porque a maior parte do orçamento da ONU é coberta por quem? Pelos Estados Unidos. E a alternativa é a gente voltar...

Toni Negri: Concordo plenamente com você, concordo plenamente, mas temos que resolver isso. Como será uma nova democracia com força de sustentação? Uno nova democracia com força para ser, para impor, por exemplo, o Tribunal Penal Internacional. Eu concordo, na Europa eu concordei quando o ministro do Exterior alemão Joschka Fischer [Joseph Martin "Joschka" Fischer, político muito popular, trabalhou como taxista, apoiou protestos de esquerda em 1968, criou o Partido Verde Alemão no qual desempenhou importante papel; foi Ministro das Relações Exteriores da Alemanha e vice-chanceler no governo de Gerhard Schröder 1998 a 2005] se dirigiu aos poloneses, ou a todos que os americanos haviam literalmente comprado, para que não aderissem ao Tribunal Penal Internacional: “Na Europa vocês não entram”. Eu concordo. Mas isso não soluciona a questão da democracia no mundo, entende? E o problema é muito simples. Como já foi dito por um célebre analista político americano, a democracia mundial seria pensada como? Se imaginarmos a democracia baseada em princípios como um homem igual um voto então os chineses vão dominar o mundo. São diversos paradoxos que não tem, que não dão o sentido da democracia. Em resumo: estamos numa situação em que os Estados-nações têm naturalmente seu papel e seu desenvolvimento. É claro que a força armada mundial, ou seja, a polícia mundial, a moeda, ou seja, o sistema de valores, incluindo trabalho, troca e tudo mais, e a comunicação, a linguagem, a cultura isso não é de ninguém, é de todos. Como podemos redeterminar um sistema no qual cada um de nós seja livre com relação a essas dimensões do problema? Há um outro pequeno problema também. Existem os ricos e os pobres. Hoje, no mínimo... Um velho filósofo judeu chamado Lévinas, uma pessoa muito simpática, sempre dizia em voz baixa: “Se você falar de liberdade sem falar de igualdade, não vai conseguir jamais”.

Rodolfo Konder: Mas professor isto tem sido um argumento para acabar com a liberdade e não com a desigualdade. O senhor fala dos males da democracia com muita competência e nós todos estamos de acordo. A democracia é uma porcaria, mas não inventaram nada melhor. Então, o problema é saber como preservar aquilo que a democracia nos garante, isto é, o mínimo de liberdade, porque os que têm combatido a democracia não tem oferecido alternativa.

Toni Negri: Veja bem, os que criticaram a democracia ofereceram várias alternativas. Ofereceram, por exemplo, educação para todos, a possibilidade de se reproduzir sem morrer de fome, o fato de não haver guerras, de não se investir na indústria da guerra. Aqueles que não defendem a democracia fizeram outras coisas igualmente boas. O problema é saber como recuperar a confiança numa organização das relações entre nós. O que eu quis dizer com Império é que as condições de raciocínio político moderno acabaram. Todas. E é inútil, quem quiser ser liberal aberto nesse modelo é um reacionário. Sinto muito, mas é assim.

Rodolfo Konder: O senhor falou educação para todos, eu pergunto: quem dá essa educação? Em Cuba, por exemplo, eles dão educação para todos, mas é uma educação que não está a serviço da liberdade, está a serviço de um governo ditatorial para todos. Todo mundo enche a boca que Cuba não tem uma criança fora da escola.

Toni Negri: Acho que, por exemplo, a União Soviética era um país de muitíssima cultura, uma cultura difusa, todos liam e escreviam, estudavam até os 18 anos. Isso acontecia por um motivo muito simples. Não era possível, em termos de liberdade dar a ninguém o computador pessoal. Eu acho que a União Soviética... Eu escrevi isso, não estou falando para responder a uma provocação, eu escrevi. A liberdade, o computador pessoal, tudo é importante, mas como hoje Stalin não é necessário, também os patrões não são. Entende? Porque a liberdade é igual para todo mundo. Não simplesmente quando me é útil para poder comandar.

Ivana Bentes: Continuando então ainda na polêmica, que eu acho um dos pontos mais polêmicos no tema, quer dizer, em termos de pensamento latino americano de esquerda é justamente a sua radical negação e condenação do Estado nacional em todas as suas formas, que o senhor coloca na origem mesmo de massacres, xenofobias [aversão às pessoas e coisas estrangeiras] e guerras. E a gente mesmo no Brasil hoje está em plena vigência de um discurso nacional forte, de identidade nacional, de cultura nacional, enfim, até de um imaginário nacional muito forte. Eu queria voltar exatamente então a lhe ouvir sobre essa impossibilidade do Estado nacional talvez enfrentar essa constituição de uma cidadania global, de uma democracia global.

Toni Negri: Devo dizer que nas conversas com colegas brasileiros, essa questão da nação me causa uma certa inveja dos amigos brasileiros. [Risos] Este é um país de vitalidade enorme, um país muito grande, um país que, com uma série de processos terrivelmente contraditórios, mesmo assim segue adiante. Parece-me que se abriu uma série de possibilidades com novos governos de esquerda. Quando falo de Estado-nação, porém, eu me lembro do que era o Estado-nação na Europa. O Estado-nação na Europa era um vestido que havia sido feito sobre o capitalismo nacional, um Estado que escravizou os operários e, quando não os escravizava mandava-os para morrer nas trincheiras, lutando um contra o outro. Na minha família seis pessoas morreram nas últimas guerras mundiais. Foi isso que aconteceu, foram milhões de mortos em nome não se sabe do que. [esboça um riso insinuando indignação] Da nação, do quê? Da nação alemã ou de Krupp? [Família alemã da região de Ruhr que fez fortuna na indústria do aço e com a venda de armamentos para quatro guerras, adquirindo grande poder de manipulação econômica e política em diversas partes do mundo.] Como diziam os poetas. Da nação francesa ou de Rothschild [família de judeus alemães cujo patriarca mandou os filhos para cidades diferente da europa e montou um império financeiro]? Como diziam outros poetas. Os grandes filósofos europeus, Bergson contra Husserl [Edmund Husserl (1859-1938) filósofo alemão, considerado o fundador da fenomenologia, apresenta a “intencionalidade da consciência” como idéia fundamental, desenvolvendo conceitos como o da intuição eidética e epoché], ambos de origem judaica, que se insultavam tranqüilamente falando da grande nação que seria representada. A nação para um europeu é o pior que se possa imaginar ou recordar. A nação não é apenas uma lembrança triste, é, sobretudo, um pesadelo futuro. Os Estados Unidos como nação... Esses Estados Unidos que são a mistura mais formidável, há uma poesia belíssima de Melville [escritor norte-americano, 1819 – 1891, Moby Dick é o seu livro mais conhecido] que diz que os Estados Unidos são um país de Melquisedeques [estrangeiros, personagem bíblico misterioso cuja origem era desconhecida, não tinha ascendentes e nem descendentes], onde não há eslavo ou latino que não possa dizer que é americano. Devemos mesmo abrir essa nação de Melquisedeques à liberdade de todos. A nação deve ser uma fachada por trás da qual se esconde a capacidade que cada um tem de desenvolver o próprio trabalho, a própria energia, de trazer filhos ao mundo, de construir uma vida, de ter bom senso e alegria.

Giuseppe Cocco: Queria perguntar uma coisa deslocando o debate um pouco. Mas na relação entre as dinâmicas sociais e dinâmicas políticas. Pensando no fato que nessa cadeira alguns tempos sentou um amigo teu, Oliviero Toscani [1942, fotógrafo italiano que, nos anos de 1990, criou campanhas para a marca Benetton, destaca-se por inventar campanhas polêmicas] que trabalhou com Benetton [empresa italiana transnacional de moda fundada em 1965] e que você escreveu um artigo que eu publiquei aqui no Brasil sobre o conceito de empresário político. Esse artigo, ele tem uma grande capacidade de dar conta desse fenômeno aonde a dinâmica de liberdade e a dinâmica da produção ela, digamos, tende a poder a convergir, pode ser, digamos, uma qualificação dessa nova época. Mas como é que você qualificaria esse conceito de empresário político, inclusive com relação aos desafios que esses territórios produtivos encontram na globalização?

Paulo Markun: Quando você menciona empresário político você não está...

Giuseppe Cocco: É o próprio Benetton.

Paulo Markun: Não está pensando no Berlusconi? [Silvio Berlusconi, fundador e líder do partido Força Itália, foi presidente do Conselho de Ministros no período de 2001 a 2006, considerado o homem mais rico da Itália e o 15º do mundo, é empresário de comunicações, bancos e entretenimento]

Giuseppe Cocco: Até, até, ele vai falar disso.

Toni Negri: Vejo muita diferença entre a Benetton e Berlusconi. A Benetton é produto... Acho que já falamos disso, se eu não me engano. É um produto dessa estranha revolta... Note bem: Berlusconi tem 250 mil pessoas trabalhando para ele, e são no máximo 10 mil contratadas legalmente. As outras mais de 200 mil mantêm uma relação comercial aberta, uma relação contratual aberta. Assim se joga com a abertura do mercado, com a contínua expansão do mercado, baseada em condições sociais de reprodução. Claro que o modelo Benetton antecipa o modelo da comunicação, da organização comunicativa e o modelo de relações comerciais que intervém. Berlusconi transferiu esse modelo para a política. Ele fez isso, fazendo disso um modelo, uma máquina seguramente autoritária e populista. Resta saber se estudar o modelo do empreendedor político seria útil do ponto de vista de novas organizações da massa. Estou convencido que só com formas produtivas novas e alternativas serão possíveis as coisas que se pregam na globalização: os instrumentos de controle, o uso cada vez maior de ONGs, mas capazes de intervir positivamente nos negócios e controlá-los, instrumentos de educação e formação de opinião pública. Tudo isso, evidentemente, vai além das capacidades do movimento operário tradicional para construir estruturas organizativas assim. O ideal é tentar fazer isso. Acho que seria extremamente útil.

Paulo Markun: Eu tenho uma última pergunta, nosso tempo está acabando e eu queria pedir que o senhor fosse realmente sintético na pergunta e eu sei que é um pergunta que certamente já lhe foi feita dezenas e dezenas de vezes, até por experiência própria, mas sei que é aquele dever do oficio de quem está perguntando. Queria saber o que mudou na sua vida o fato de ter passado 17 anos na prisão?

Toni Negri: Não mudou nada.

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