domingo, 28 de dezembro de 2008

CAFÉ FILOSÓFICO | Entrevista com Viviane Mosé


CAFÉ FILOSÓFICO Entrevista com Viviane Mosé
22/12/08 por Andre Deak
Em busca da potência da vida “Não somos mais Id, ego e superego” Viviane Mosé. A psicanálise recorre à filosofia: o homem descrito por Freud não é mais o mesmo. A urgência máxima é recuperar a potência de vida, aprender a lidar com a dor, nos livrar do niilismo criado pela falta e pelos excessos contemporâneos. Em "O que pode a palavra?" a primeira palestra do módulo Deslimites, realizada em 6 de junho de 2008, a filósofa e psicanalista recita algumas de suas poesias para introduzir uma visão diferente sobre as mudanças de comportamento no mundo contemporâneo. Veja a entrevista:

Você cita a existência de mecanismos sociais de controle que culminam com a produção de pessoas impotentes. Quais são eles e como se aperfeiçoaram no mundo contemporâneo?
O principal mecanismo de controle é a criação de modelos e conceitos. Quando se privilegia muito um modelo específico de corpo, por exemplo, todos os corpos se submetem àquele modelo só que, por ser um modelo, ele não tem correspondência com o corpo, é inatingível... Além disso, há os modelos de felicidade e também os modelos que recebemos na escola: quando a escola se fundamenta nesta engrenagem, os pais são comprados pela idéia do modelo e querem que seus filhos sejam “bem sucedidos”. Nós entramos nesta engrenagem e passamos a nos alimentar com um alimento que não sacia.

Mas isso é proposital? Quer dizer que há um grupo que controla as pessoas conscientemente ou isso é algo mais subjetivo, inconsciente?
Não, é completamente subjetivo. Essa é uma boa pergunta. Esse controle não é consciente, é produto de todos nós como coletividade. A humanidade como um todo reproduz seus afetos nos seus modelos, então, esses modelos impotentes são a conseqüência da nossa imponibilidade em relação à vida. A transformação pela qual estamos passando é inédita. O Nietzsche fala da Grécia arcaica, da época da tragédia grega. Aquilo era uma experiência, as pessoas estavam lá para aprender a se relacionar com o sofrimento, para aprender o que nós temos de potência. Uma sociedade que não sabe se relacionar com o sofrimento vaicada vez mais fugir dele tentando atingir modelos. Então, olha só que sacada: mudar nossa relação com o sofrimento desabaria todos os modelos! Se a gente aprendesse a sofrer, não precisaríamos comprar tantas coisas ou mesmo se drogar tanto. É uma curva mínima que inverteria toda a estrutura social. Por outro lado, o consumo excessivo está acabando com o planeta, vai faltar alimento, então, necessariamente a sociedade vai ter que mudar o modelo, pois ela não poderá oferecer produtos para acabar com a tristeza. Percebe? O caos social que estamos vivendo é que está impondo o novo homem. Este homem que somos é o que conseguimos ser.

Você diz que “Vivemos de sobreaviso esta sobrevida que arrastamos por um fio, uma sobrevida que degenera em uma passividade que mata sem paixão, mata por nada”. Seria isto um tipo de Niilismo?
Completo niilismo! Eu nasci para acreditar na sociedade, não na vida, porque é diferente! Aí, o que a sociedade me oferece é o que eu preciso: trabalhar, ganhar dinheiro, etc, mas quando o que a sociedade me oferece já não me satisfaz, ou se eu não consigo me enquadrar a ela, nós caímos na desvalorização da vida, que é o que causa coisas como o suicídio dos jovens... O que as pessoas precisam diferenciar é que uma coisa é a cultura, outra coisa é a vida! A cultura se modifica, prova disso são as variações culturais: em um país europeu, as pessoas tomam banho nuas, uma na frente da outra, sem problemas. Aqui, nós usamos fio dental, mas jamais ficamos nus na frente de um filho, sequer. A cultura pode inventar formas de convivência infinitas, mas a vida permanece, ela não depende da cultura. Se um asteróide cair na Terra e acabar com toda nossa cultura, ainda assim a vida não acaba! Temos que criar uma cultura que valorize a vida, esta coisa estranha e incompreensível. Temos que manter a vida incompreensível, mas respeitá-la em sua incompreensibilidade.

Porque não podemos tentar compreender? Não é isso que fizemos até hoje?
Compreender é tentar traduzir em linguagem e a linguagem reduz a 23 letras. Por mais que você queira expandir, há um dicionário com um número de verbetes fixos. Há muito mais afetos no mundo que o número de sentimentos escritos no dicionário. Quando seu sentimento não tem correspondente no dicionário, você fica mal, porque você sentea angústia, um sentimento sem nome. No entanto, qual é o problema de ter um sentimento sem nome?

O que falta, afinal, na maneira que vivemos a vida? Ou será que o problema da contemporaneidade são os excessos – de exigências, obrigações e necessidades que são criadas diariamente?
Nós sofremos de falta, não de excessos. A violência, o uso se drogas, são excessos que vêm da falta. Você tira tanto das pessoas hoje, exige que elas não falem alto, que sigam o tal modelo... Então o que sobra para elas? Nada! É quando explodem em violência. Temos uma quantidade de força que não dominamos. O excesso hoje é o transbordamento de uma coisa que não foi permitida a você viver. Lá na favela você tem o excesso e no jovem de classe média-alta, tem o niilismo.

Como podemos, afinal, identificar a “potência” da vida ou a falta dela?
No corpo. A vida é fenômeno físico, você vê nos olhos, quem tem vida tem raiva, tem alegria, ela está presente em sentimentos transbordantes, que às vezes são contraditórios. Identificamos a vida no corpo, por isso é que ele será abordado na próxima palestra, depois da palavra. A gente precisa desconstruir a palavra para a vida acontecer, depois trazemos a vida, que é orgânica, que é sinônimo do corpo. O que acontece é que substituímos o corpo pelo pensamento. Nós temos um pensamento castrador, excludente, que elimina a vida. Por exemplo, nós temos uma cabeça obesa e um corpo raquítico. Você anda pela rua como um amontoado de pensamentos, não sabe nem por onde está pisando. E outra coisa, quando eu falo corpo, não é só o seu corpo, é o corpo das coisas, dos prédios, das árvores, da cidade. Precisamos retomar o sensorial.

Então a vida é sempre explosiva, extrovertida?
Quando eu falo que a vida está no corpo, isso não precisa ser demonstrado em forma de explosão. A coisa mais linda do mundo é uma pessoa viva e contida. É de uma beleza singular, pois ela "explode" em um gesto mínimo. Por exemplo, quando você vê uma pessoa no palco, cantando, e ela faz um gesto com a mão e todo mundo pára no teatro. Isso é a potência da vida.

Qual é a relação da palavra com a verdade? A palavra ainda institui o que é verdade?
A relação que nós temos com a palavra é uma relação de verdade. Se eu digo “eu te amo”, você tem que incluir que amanhã eu posso não te amar. A palavra apenas comunica, ela não eterniza as coisas. O caráter de verdade da palavra cria uma exclusão muito grande é como se cada coisa que a gente dissesse, tivermos que assinar embaixo. Outra coisa, quando eu digo “eu te amo”, eu acredito que você sabe o que eu estou dizendo. Não! Se minha mãe me batia quando eu era pequena, amar, para mim, implica em bater.

Muitos filósofos da atualidade também são psicanalistas. Está se formando um novo campo de estudo que converge essas duas áreas de conhecimento?
Vou dizer uma coisa meio bruta, mas é verdade. Isso é produto da falência da psicanálise. Pois ela, sem saber para onde vai, está indo para a filosofia. A filosofia nunca soube para onde vai, mas como ela não implica em prática clínica, a filosofia pode ficar, elaé só pensamento. Já a psicanálise é uma prática, ela tem que ter uma ação, um resultado. Então, a psicanálise entrou em um beco sem saída, pois o modelo de homem que Freud descreveu muito bem, hoje não existe mais. Nós não somos mais Id, ego e superego, nossa estrutura psíquica mudou muito, então, o que a psicanálise tem que fazer? Para não abandonar sua prática, ela tem que fazer uma nova leitura do homem erever o modelo de homem que está construindo para se alimentar desta nova subjetividade...

Então a filosofia continua em alta?
Não, isso tudo não quer dizer a filosofia vai muito bem não... Mas eu acho, como psicanalista, que a melhor coisa que os psicanalistas podem fazer para ter uma boa prática clínica é estudar filosofia, pois ela é um motor, a psicanálise fica viva em contato com a filosofia, ela não precisa seguir um filósofo. A filosofia é o estudo do pensamento, ela tem um dado que é bacana, por exemplo, se eu for pensar o homem e tiver compromisso com a realidade, se tiver que atendê-lo como paciente, eu sou limitada, pois eu tenho que atender meu paciente para ele ficar bom. Para atendê-lo, eu tenho que criar uma coisa específica. O que é legal na filosofia, é que ela não tem compromisso com a realidade, por isso, ela pode delirar! E ao delirar, ela cria conceitos que a gente ainda não tem! Quando um pensamento se submete à realidade, ele é um pensamento aplicado à realidade, ele está sempre correndo atrás dela. Quando você está livre, não! Então a filosofia é quase como literatura.

Mas quando você diz que a psicanálise não explica mais o homem contemporâneo e a filosofia também não vai bem, na verdade isso não seria uma coisa positiva, tudo estaria se desconstruindo para criar uma outra coisa, que não é nem só psicanálise nem só filosofia?
Exato! A questão é a seguinte: o mundo mudou tanto que nenhum pensamento o acompanha. O que eu defendo é que não há um novo conteúdo de pensamento, há uma nova estrutura de pensamento. Antes, pensávamos opondo o bem e o mal, a dor e a alegria. O novo pensamento tem que incluir a dor, a perda, a mudança. É nova sensação, ele tem que incluir o corpo, o afeto... E o nosso pensamento exclui o afeto, a paixão, a contradição, a mudança... Com um novo pensamento, nasce um novo homem. Pensar é criar modelo e nosso modelo exclui a mudança, e um pensamento que não exclui mudança é mais ético.

O mundo saturado de informações, que nos bombardeia diariamente com tendências, sugestões e modelos, diminui nossa potência como máquina inventiva?
Completamente! Porque a criação é a potência do desconcertamento, onde tudo está estabelecido não tem invenção. Precisamos estar vazios para inventar e, para ter o esvaziamento, precisamos ter o transbordamento, tenho que transbordar vida, para me esvaziar e criar. É uma retro-alimentação. Em nossa sociedade, você agarra meia dúzia de merrecas que você adquiriu, que são os amigos, os valores, o seu namorado e acabou. Isso impede a invenção, a criatividade, a criação de novas subjetividades.
TV CULTURA

Um comentário:

Fernanda disse...

Saudações Eduardo!
Fiquei muito feliz de ver que muitas de minhas entrevistas estão em seu blog. É uma grande honra para mim! Só tem um probleminha... Eu sou a FERNANDA BELLEI, mas muitas de minhas entrevistas foram portadas no site da CPFL Cultura pelo ANDRE DEAK, por isso, você deu o crédito de algumas das minhas entrevistas para ele. São elas:

São elas: Luiz Felipe Pondé; Luiz Orlandi; Viviane Mosé; Murilo Salles; Jorge Forbes; Luciana Ayer; Paulo Roberto da Silva; Alexandre Costa; Tales Ab'Saber e Augusto Daminelli.

Pode conferir no site:
http://www.cpflcultura.com.br/posts/entrevistas

E aproveite para visitar meu blog também:
http://ferbellei.wordpress.com/

Obrigada!